terça-feira, janeiro 21, 2014

Sonho e a volta pra casa

Tenho um sonho recorrente faz no mínimo uns 30 anos. Talvez já o tivesse antes, noutro formato.

Estou na periferia de uma grande cidade tentando pegar um ônibus para ir para casa. às vezes sonho que vou por ruas íngremes e estreitas, noutras vezes por grandes avenidas que se cruzam, planas, vazias. Uma vez tantas camadas de avenidas, metrôs e trens que parecia uma Metropolis empoeirada. Às vezes vou por lugares sujos e poluídos, ora arejados e assépticos. Algumas vezes assustadores, mas sempre desconhecidos.
Nos sonhos eu preciso confiar que o motorista ou cobrador entenderam onde quero ir, porque há tantas linhas e direções possíveis. Isso quando entro finalmente num ônibus, às vezes nem chego nesse ponto e acordo já desistindo de ir até o fim.
Na última vez estava apenas bodeado e cansado. Por ser recorrente, o sonho já não me assusta, apenas me estressa ter que correr contra o tempo porque ou está escurecendo ou tenho um compromisso. Nunca chego em casa: não sei onde é isso. Todo caso, agora, é um estresse contingencial, não fico mais ansioso, apesar de sempre estar sozinho.
É um tanto óbvio: minha vida parece boa, apenas o momento é confuso e pede calma, logo estarei bem.
Ou nem tão óbvio: nunca voltarei pra casa... seja o que for que casa signifique.

sexta-feira, setembro 27, 2013

Longe...


Solto de Krypton,
Sol amarelo no céu,
Seu olhar verde.

Um Hai-Kai sem dono...

O lago no outono
Salta a rã
Desaba o céu!

No acostamento do caminho de Santiago


perplexo
ex convexo
hoje
tudo me diz nada
nada será tudo
hoje
côncava espera
...estrelas
...sol
...planetas
cometas incertos
...
...
chuva?
talvez?
talvez... recôncavo.
...
meu coração como mãos em concha espera.

sábado, setembro 21, 2013

novas memórias velhas

novas memórias velhas


os corpos amontados envoltos em ferros ainda estão úmidos de sangue.
como ilhas em mar vermelho, pedaços de homens flutuam. o sangue empoçado começará logo a se coagular e tudo se unirá ao chão do deserto.
então alguns corpos se movem e tombam para os lados, pesados, mais pesados do que em vida carregavam suas armaduras. e o guerreiro se levanta de entre eles como uma baleia salta para fora do mar, sua boca procurando ar. e cospe muito sangue. o seu e os dos mortos sobre ele.
no desespero de se livrar de tudo não sente seu próprio sangue vazar por um grande buraco no seu flanco.
tenta livrar seus pés e tropeça em corpos. cai e vê de perto olhos arregalados que parecem gritar para ele. o brusco movimento para longe o leva a olhar o céu. o céu muito azul e ele não olhava o céu já fazia muito tempo.
muito ao longe ouve algum gemido. e o vento. o vento frio fazendo o rio de sangue por onde andava entre os corpos começar a gelar e secar. algo fazia sombra e deixa o sol brilhar muito ao longe. sentiu que ia morrer em instantes. como uma sentença: viveu apenas para ver tudo aquilo. 

som de cascos de cavalo distantes. cavalos relincham. vozes gritam. os cascos batem ora secos, ora encharcados de sangue, ora surdos sobre o oco de corpos. o cavalo se aproxima às suas costas e ele sabe que não tem mais tempo. ele já teve tempo para ver tudo aquilo que produziu. é hora de acabar. ajeita sua coroa, se ergue apesar da dor e respira pela última vez.


sábado, novembro 10, 2012

super prise surprise

A vida é cheia de surpresas. Boas, ruins e as divinas.
Depois tudo volta ao normal.
O coração bate de novo do mesmo jeito, e até esquecemos que nos surpreendemos antes. 
Já não rimos tontamente ou falamos tolices pra esticar um pouco mais a conversa.
Mas você... não sei se foi uma boa, ruim ou divina surpresa porque até agora o maldito coração não voltou mais a bater direito.
Temo que com tão prolongada falta de equilíbrio já não bato bem da cabeça também.
Fico aqui, ora rindo, ora falando tolices.
E o coração batendo fora do tempo.

domingo, outubro 28, 2012

Cai, cai, silêncio... devagar...

Hoje tomei uma chuvarada vindo da votação na Vila Madalena. 
Preciso mudar meu titulo pra Jardim São Paulo. 
Não deu tempo, né gente???
Seria uma chuvarada pra me resfriar, mas sei lá... cheguei a achar divertido. 

Lembrei do tempo em que eu vinha pra casa brincando com meu guarda-chuva e chegava encharcado e levando bronca.
Que chuva boa no caminho pra minha casa... 

Minha casa que hoje finalmente senti como minha casa. 
As ruas do Jardim São Paulo finalmente são minhas também.
Acho que estou feliz. 
Isso não é pouca coisa pra ajudar no sistema imunológico de um homem.
Estou feliz.
Tá bom.

Sim tá bom demais.
A chuva ainda cai. Alguns trovões. Mais chuva.
Boa noite pra dormir.

Boa noite, quem me faz feliz...

terça-feira, outubro 16, 2012

Penélope Velha, durma bem



Não quero esperar você
Tecendo fantasias e medos.
Vivendo no ar, suspense,
Ignorando seus passos...

Não quero passar noites vazias
Criando tramas de fios soltos
Gozando com as cores da seda
pra nova roupa do rei.

Quero estar com você
Mesmo que separados por hemisférios
Andando no meu chão sem pressa
Conhecendo seu caminho

Suas noites de alegria e festa
Um urdimento sem fim
Guardando todas as histórias
Que você agora guarda pra mim.


quarta-feira, outubro 10, 2012

Menino, menino, menino!


Não é agradável ouvir certas coisas de moleques remelentos, mas eu nunca tive problemas com idade. Nem tenho mais deferência ou desprezo por uma ou outra faixa etária.
Mas pra eu não racionalizar, bicho, é uma luta minuto a minuto contra 47 anos de especialização. O que nos salva num momento, nos afoga no outro. Principalmente armaduras muito pesadas.
Ficar nu diante dos fatos é poético e poesia demanda alguma loucura e método, talvez dissesse Polônio.
Nesses olhos perigosos sem ressaca, nadar, afogar ou mergulhar é a mesma coisa. É preciso morrer para poder nascer e aprendi uma coisa ou outra sobre esse processo ultimamente.
Aprendi a amarrar o cadarço para a caminhada, mas foi só primeiro passo.

segunda-feira, outubro 08, 2012

O destino de um só

O gosto de ferrugem
A espada sem corte ainda fere
Seu gosto na língua,
Matando aos poucos
Tetânica

Esse sangue que me alimenta
que me alimenta a morte
que me alimenta o medo
que me alimenta o desejo de um fim

O jorro da vida amamentando a morte
Sinto o rio se espalhar por mim
desde a infância, o calor sol vermelho
pulsando, latejando, irradiando.


sábado, outubro 06, 2012

Adeus

Chegando a hora de dizer adeus para sempre...
É uma dura hora, um funeral de vivos.

E eu que, amei tanto esse viver, não consigo dizer adeus.

um pouco de vida já é vida

Eu preciso de sua coragem.
A minha falha, miseravelmente.
Toda força que me sobra:
Apenas para chegar até você.

Por favor não tenha medo
Por favor venha na minha direção
Preciso viver.

terça-feira, outubro 02, 2012

O deserto é onde você não está...


Quando conheci você
Eu achei... eu desejei... eu quis muito que ficássemos juntos
E achei-desejei-quismuito que fossemos juntos, caminhássemos lado a lado.
Bastava isso, seu passo ao lado do meu.
Seu sorriso de lanterna e trilha sonora.
Um amor que nem se sabia amor, simples e alegre.
Eu queria tudo de você e não queria nada exatamente.

Agora, percebo,
Não tao alegremente, mas feliz,
Que você se infiltrou na minha vida de forma incontornável.
Talvez de propósito, talvez como a areia que entra pelas frestas da veneziana fechada....
Estou pleno de você e nem me importo se não há mais lugar para mais nada.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Plagiando

la plage
sur la plage
le soleil dans le ciel, les vagues à mes pieds

vos yeux verts
le monde porte verte comme un jardin
.
e se antes esse eu não existia era porque seus olhos ainda não me viam...

domingo, setembro 16, 2012

Calor

eu amo você
amei desde o primeiro momento que vi você
e cada vez que você sorri eu sei que entendi certo:
você disse venha e eu fui.

"fica comigo esta vida
e não te arrependerás
la fora o frio é um açoite
comigo calor tu teras...."

terça-feira, julho 03, 2012

Os seus olhos que não me veem.

Vir aqui escrever
Para que?
Você não lê.
Inútil tecer.

Nosso amor,
Um espelho numa sala vazia.
Nada. Ninguém.
Nem a dor.


domingo, junho 10, 2012

Para que servem as mãos?




olho minhas mãos e não são minhas
aperto uma mão contra outra como se rezasse
apenas sinto a textura da pele
pressinto o peso sem peso de meus ossos
não são minhas
tão magras que ainda não as conheço
são mais as mãos de quem eu amo
tão minhas e tão alheias
só minhas quando me tocam os ombros

mas minhas mãos não são minhas
meu corpo não é meu
leio um livro
olho um texto escrito em papel de caderno faz 20 anos
abro um arquivo de texto de 2009
não sou mais eu
olho para minhas mãos
ainda não sou eu
não reconheço esse corpo quando me deito
não me reconheço
eu sou outro
não sei ainda quem e hoje não estou muito interessado
fico quieto
tudo se esvazia e me deixa
no silêncio de minha presença apenas você se move
mas não sei também se você é você ainda
se ainda me ama
se ainda sorri quando me vê
se ainda se arrisca a me amar
mas no silêncio de minha presença ao menos você se move
e se arrisca
e sorri
e me ama
não sei muito mais que isso agora
não sei
se alguma coisa das novas coisas vale a pena afinal
mas para suportar tanta solidão de tudo
inclusive de mim mesmo
fico em silêncio e ouço sua respiração em silêncio ao meu lado no metrô


domingo, abril 29, 2012

Zen


meu primeiro beijo foi no outono.
o sol esquentava.
a sombra refrescava.
a luz amarelava.
o céu azulava...
e as damas da noite ainda não se faziam de gostosas.
tudo era igual ao que sempre foi,


sabe Deus de onde eu tirava a idéia de sempre
eu, nascido há menos tempo que o limoeiro no jardim...


o porão como uma caixa de mágico
a luz penetrando como espadas.


então veio o beijo:
o sol dentro da pele
a saliva fria e úmida

a pele alheia tão próxima,
alheia e sua,
minúsculos vulcões de suor.
e o céu, escuro, na boca.


e minha vida finalmente começou.
o bem, o mal, 

o desejo unindo ambos
numa bolha...

sábado, fevereiro 25, 2012

Sem verão


o verão nem acabou e já está frio...
e o frio... pede calor... de casacos, cobertores e abraços...
e abraços pedem braços amados, não quaisquer braços...
e braços amados pedem amor... que você ame...
e para você amar, algum verão, nem que seja de uma andorinha perdida, você tem que ter no coração...
e verão no coração... pede que se tenha coração...
... but my heart is frozen in a Danube bank...

domingo, janeiro 08, 2012

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Amando na chuva...


escolha bem seus amores...
escolha, também, os dias em que deve chover...
escolha, também, quando deve haver terremotos, maremotos, tornados e furacões e em que partes do globo desabitadas devem ocorrer...
escolha o que quiser do jeito que quiser. mas a vida vai lhe dar tudo como lhe aprouver... caoticamente.
assim escolhi amar você... e aceitar o caos.

domingo, dezembro 18, 2011


Entre o céu e o inferno existem abismos gloriosos e dignos do risco da queda.
Correndo riscos de ter uma perna ou o coração quebrados, mas indo colina acima pra ver o céu e ouvir um rio correr falador sob a floresta.
O rio do meu coração só diz um nome, mas pôde ouvir o mundo sussurar todos eles.


Em Rusenski Lom, 20km de Ruse, Bulgária.

domingo, agosto 21, 2011

Além do jardim



A cada passo que dou nessa terra tenho a sensação de que já estive aqui.
Pode ser apenas minha capacidade de associar lembranças e editá-las, que herdei da minha mãe, com certeza, e de meu pai, talvez...
O cheiro e som das estações de metrô em Berlim iguais aos da minha infância andando de trem no interior de São Paulo, o cheiro de capim seco em todo lugar e de bosta de ovelha na Serra da Estrela e nas estrada para Ruse, o cheiro de lavanda em algumas ruas de Seia, da florista em Budapeste e das minhas malas onde guardei um ramo. O cheiro de tempero e defumados em toda parte. Os ladrilhos nos metrôs, sobras de uma arquitetura higienista talvez... menos em Portugal onde eles são uma festa quase tropicalista depois de descobrirem o Brasil, principalmente... mas não somente. E uma eterna limpeza imperfeita e não desinfetada ou cheirando a amoníaco e pinho. Apenas limpeza .Quando cheira, tem um cheiro que eu nao sei qual é... um limão amargo, talvez. E uma surpresa infantil que demorei meses para saber o que era... o cheiro perfumado de Praga. Talvez tílias, talvez jasmin. E o cheiro de rio apenas rio e água e mato nas margens do Vltava olhando a ópera de Praga passar. Ou, melhor, estando a passar numa procissão de pedalinhos em fúria num dia de chuva, frio e de performances nas margens de uma ilha. E o rio a cheirar apenas água. Um paulistano tem vontade de chorar...
Estou a falar de cheiros e não de luz. Mas viver num eterno outono mesmo sendo verão é demais para precisar de descrições. E eu perdido com o sol na janela às nove horas da noite...
Eu digo que não me surpreendo com nada e me emociono com tudo. Ou quase isso. Quando saí do metrô e fui sugado pela praça Venceslau em Praga. Quando um bando de gaivotas cruzou o caminho do ônibus na ponte sobre o Douro no Porto. Quando me vi no ponta extrema da Torre de Belém e a terra nas águas do Tejo corria para o Atlântico. Vendo as planícies virarem montanhas de repente e de repente sumirem em nova planície depois de deixar Sófia.
Me disseram que às vezes tenho reações de zumbi às coisas que em outros provocariam arroubos e voz alta. Mas em algum lugar na minha infância aprendi a não demonstrar o que sinto. Eu sou assim por quarenta e tantos anos. Bem, dizem também que não é nada dificil perceber o que estou sentindo. Mas não é questão de demonstrar algo, mas transpirar algo. Tudo acontece por dentro como a força que faz uma bolha de sabão existir e tudo é transparente. Dependendo do ângulo, invisível. Mas só eu sei como tremi por dentro cruzando o Portão de Brandenburg junto com o sol e dezenas de bicicletas que vieram do nada. Ou ao me enrolar em cachecóis no meio da chuva gelada que caia no Memento Park, em Budapeste, no desterro de todas as estátuas comunistas da cidade. Ou lendo, ou tentando ler, os nomes de tantos meninos e meninas de dezoito, dezesseis, quinze anos mortos na lutas pela independência búlgara num parque ensolarado a beira mar. Ou achar uma ruína perdida na reconstruída (e em reconstrução) parte oriental de Berlin... a ruína da Berlin oriental sobre ruínas da Berlin imperial de Hitler. E mais tílias a cobrir tudo. E também tem tudo o que não aconteceu. O vazio que abre espaço para o novo e o vazio que apenas espera...
Em Budapeste fui descendo pelos porões do museu do castelo e fui descendo e a cada escadaria encontrava uma senhora sonolenta que, surpresa, acendia as luzes para mim. quando sai novamente para o ar livre estava quase na altura da rua ou do rio... e tinha achado no sub-solo do sub-solo uma igreja inteira escavada sob tudo aquilo. No jardim ao qual cheguei só eu e um passarinho de peito amarelo brilhante. E o silêncio. Lá no alto um garoto de 8 anos me achou e gritou rindo. Mais surpreso que ele só o garoto que conheci na queima de fogos no 14 de julho, em Paris. Depois de uma eternidade pra entrar no metrô, esperar o trem e o trem parecer ir em câmera lenta pelo subterrâneo eu me levantei para descer e ele me olhou com cara de "mas você vai embora mesmo...", tão surpreso que quase não desço. Na verdade ele não disse isso, não disse nada. Aliás, não sei como, sem falar francês ou ele inglês, conversamos por tantas horas. Era como se já conhecesse ele antes.

quinta-feira, agosto 04, 2011

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop


http://www.poemhunter.com/poem/one-art/

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Malas prontas!


às vezes na vida a gente não se move porque ninguém aparece pra ajudar com as malas e a gente pensa que ninguém aparece senão pra dar palpite, tentar nos dissuadir, fazer força contra... para carregar a bagagem, ninguém... ou quase (sejamos justos, né, Raoni?)...
então... façamos o seguinte: menos malas...
carregar apenas a si mesmo é para os corajosos... tentarei vencer o medo.
um dia direi... "Vim, Veni. E venci!"
e vamos bater asas...
opa
pernas...

terça-feira, outubro 26, 2010

o dia seguinte à festa....

Sou o que olha para dentro e vê:
tudo se esvaziou como um salão de aluguel na tarde seguinte a última festa
janelas abertas,
assoalho cheirando a lavanda,
cortinas balançando ao vento
nenhum sinal do que viveu ali até ontem...
então venha novo
e habite comigo
e fique ao meu lado enquanto o vento move as cortinas
agita as folhas das árvores lá fora
e move o silêncio como um navio a velas
deixe que o mesmo vento que enche os pulmões nos leve adiante
confie que não solto sua mão

domingo, setembro 19, 2010

Fome

O céu da tua boca é a boca do meu céu
E me perco nele como o mar se espalha na boca de uma baleia...
Míriades de águas vivas e micro estrelas do mar brilham num palato azul marinho...
Teu céu abre a boca e me engole como as baleias engolem uma multidão
Krill
Me espalho no céu como flores amarelas de ipê no vento outonal
No céu outonal...
No sol outonal...
No dourado outonal
E nos perdemos um n'outro
Cio

quinta-feira, maio 06, 2010

Céu da Boca

Palato
Palatino
Palácio de prazeres
O céu da boca sente o vento circular a ideia do doce
A boca do céu, abobadada, sente o sol escorrer
Ardendo doce como mel
A dor e o prazer: onde um se transforma em outro?
Abro a boca e sinto o vento
Cheiro de jasmim, gosto de estrelas
A boca da noite mastiga tudo sem ruído
O açúcar dissolve seu veneno em meu sangue
O amor me dissolve em você
Circulo em suas veias, você nas minhas
Veneno
Venoso
A vida oxida, nos entorpecemos
Abrimos a boca para o céu
Pedimos bis
Felizes
Primavera nos dentes
Açucarada
Sussuramos no ouvido
Papos de anjo
Nas alamedas do Consolação
"O que é para sempre não precisa ter pressa"

quarta-feira, março 17, 2010

Depois daquele beijo...


Outono. Calor no sol, frio na sombra.
Cheiro de capim la fora e maresia, cheiro de roupa velha aqui dentro e mofo.
O corpo seminú. O sorriso inteiro.
A boca, o gosto da pele.
Um tempo sem tempo para terminar.
O primeiro beijo.
Como uma onda que parasse no ar pouco antes de arrebentar, gozando o momento do seu próprio fim.
A finalidade das coisas... nós a escolhemos, sabendo ou não.
O outono de novo quarenta e cinco anos depois e o amor.

segunda-feira, março 01, 2010

Elefante



Às vezes tudo parece ser impossível.
Como querer pegar alguém nos braços sem ter braços.
Como querer sentir a respiração sem que haja ar.
Como querer pensar sem que haja razão alguma no controle.
A vida tão maior que nós. Mas, afinal, se eles cavalgam elefantes na Índia por que nós não?
Eu não sei se um dia poderei segurar sua mão. Nem sei se meus lábios ainda estarão úmidos quando tocarem os seus.
E você pergunta se é possível sermos assim. "É possível? Será que já vi você nos meus sonhos?"
Como é possível que você tenha estado sempre no fundo do meu coração ou colado no fundo do meu cérebro? Sempre lá, desde sempre, como os genes que me fizeram, tudo sendo tão grande e maior que nós?
Desde criança eu sonhava cavalgar elefantes antes mesmo de saber que existiam elefantes, como uma memória anterior aos fatos. A vida maior do que nós. Nós mesmos maiores do que podemos entender, vivendo, fingindo viver, fingindo não sentir tanta dor, fingindo sermos imunes a tudo.
Tudo tão maior e impossível, nossas verdades e mentiras, nossos segredos dentro de segredos dentro de segredos. E hoje, hoje eu vi e extensão sem fim de nós por conhecermos ainda.
Tudo maior. O vento lambendo a abóbada do céu. Mas vou cavalgar meu elefante. Certo que vou!

domingo, fevereiro 21, 2010

Absolute Zero

you are my great possibility of happyness!
so sad...
I have no possibilities, then...
but if you are happy, maybe, may be...
your smiles make me smile, too...
and I wont die today.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Reading minds...


Medium. I am not a medium. I dont read minds, honey. Even your mind that i would love if I could read it. We did not talk last night. It was a little fight. Can't I understand you? You can't understand you. How could I do? Dont be angry with people because they don't understand you!
And I woke up happy today. So depressive, a little angry, not sad. Happy: all day without thinking of you. I woke up and thought "Oh... all the day without thinking about him." Great. I had my breakfast looking at my cups. His, His. Sometimes we are ridiculous, we both. And I took a shower singing The Zephyr Song beside I never remember the lyrics. When I sent the lyrics to you I copyed from a lyrics site.
... Together... so buzy going take the bus, I almost had a crash with that blond boy who lives next street. He is taller and stronger but smokes like you. So snobish way you smoke, a little fake, charming, sexy and hot... But you are more beautifull. So stupid sometimes. Ahhhhhh... I am stupid!
And then in the subway i saw a father and a son. Fat boy, blond and slow fat young boy. Tweelve years old, maybe. He could be your brother. Same face, same nose, same eyes. Oh, same eyes...
In the subway conection I read about airlines promotions. March is a good month to visit you, people say, low prices, low season. So much work to do to have too much money. The Orient Express is so expensive. It still exists? Well, I wont pay to know.
Buzy, buzy, had to take a taxi again. Money, money... and, in the radio, I listen when he sang "Someone told me...You was crying... It was then that I realized...How much I want you ...". I almost cried. Oh, God, I am stupid sometimes.
When my dentist opened the door he started to laught. Mmmmm, I thought.... what is up, doc?
"I am not sure, but your appointment is next week, not this... but, it is good. My patient canceled his..."
Mmmm... I think, I am stupid sometimes...
I sat down, he talked about anesthesia and said:
"If all my pacients had your "feeling" (and laughs), 'Oh, I go to dentist, because the patient of 9h30 canceled ...' good feeling..."
I laught, but thought... oh, sometimes I am stupid!
"No, no, it is good, not bad, but it was a surprise. Say, me... are you a medium?"

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Mar Negro, branca neve...

. Você quer saber se a vida pode recomeçar? Se ela recomeça sempre? Se é possível corrigir erros? Mas eu acho que tudo só acontece uma vez. Mesmo querendo, mesmo tentando, não se pode "reincializar" a vida do zero.
. Você quer saber então se não acredito que a vida vai em círculos? Se... sei que você quer recomeçar mas não tem coragem de dizer. Sei que tem medo de perder o que já conseguiu. Sei que quer repetir tudo porque é o que sabe até agora. Mas se a vida anda em círculos ela anda em espiral, fazendo a mesma volta mas num outro nível, acima.
. Ou abaixo? Sim, pode ser abaixo.
. Você diz que não sabe se a vida roda em roda, se podemos passar de novo pelo mesmo lugar como a mó de um moinho, mas você não diz, mas eu sei, você gostaria de ter começado melhor comigo. Não precisava ter começado melhor. Ter começado foi o melhor que fizemos e ainda fazemos.
. Você diz que nunca foi tão bom com outro cara. E que comigo começou a pensar em coisas. Em coisas doidas e excitantes. E você muda de assunto. Começa a escolher a roupa que vai usar hoje. A música que vai dançar. Essas danças exóticas. Exóticas para não dizer eróticas e eu penso o que pode ser mais doido do que todo dia servir seu corpo como um outdoor luminoso e deixar todos os homens doidos e gritando. O que pode ser mais doido do que eu aqui amando você sem possuir nada de você além do seu sorriso que você só sorri para mim, com o rosto corado de vergonha.
. Coisas doidas como você me amar primeiro por dentro e depois por fora quando já estarei respirando rápido, com a alma querendo ser corpo só para poder ser tocada por você.
. Coisa mais doida você quer que tudo em você seja meu e de mais ninguém. Coisa doida querer parar de falar que gosta de mim para poder começar a dizer que me ama.
Seu medo de errar. Não tenha medo. Se a vida vai em espiral.
. Então posso dizer que amo você? Eu... eu amo você!
. E minha cabeça zonza roda em espiral enquanto meus lábios sorriem e ouço milhões de vezes "eu amo voce!"

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Chocolate...

Chocolate.
Chocolate.
Eu só quero chocolate.
Nem adianta vir com guaraná pra mim
...
Já viu, diabrete, que tô na deprê..
Bem, pode ser pavê. De chocolate.

domingo, novembro 22, 2009

Preguiças, onças, andorinhas.


Sombras como ventania na janela.
Riscos cortando a luz como folhas no rodamoinho.
Desabamentos de vultos do céu atrás das cortinas.
Abro as cortinas janelas meus olhos na manhã iluminada difusa de uma manhã que é tarde num dia de verão num horário de verão abafado e com cheiro de chuva vindo.
Sombras cortam o céu na janela. Riscos negros em desabamentos e espirais próximas. Andorinhas riscam o céu.
As núvens atrás das casas sobre as colinas são pesadas e frias.
O vento umido chega às minhas narinas e me diz: chuva.
Andorinhas em redomoinho parecem procurar pouso. Mas se vão.
Sinto o cheiro do ar ficar frio, do dia ficar chuvoso, do verão de temporais se instalar de vez até encharcar as noites de barulho do verão, do natal até o ano novo e depois a canseira das noites pesadas de corpos pesadamente vivos. E nem quero pensar no carnaval, ai, "que sedução!". Quero calma. Talvez sua seduçao se você jurar não cantar sambas enredos enquanto bebe minha cerveja, ri com cara de criança levada e fica comigo até o tempo ter passado suave. Suave. Suave como preciso das noites de verão. Mas serão noites pesadas com meu corpo pesadamente vivo.
Penso em você. O amor é um outono fresco, vai ver, porque estou no outono e prefiro as luzes douradas no céu azul e a brisa fria e as noites frescas entre movimentos de folhas dizendo seu nome.
Ai, mas é verão. Suportarei mais um, agradecendo apenas as noites profundamente tristes de natal com tanta gente ausente, o ano novo na cidade vazia e o calor insuportável deitado no chão de pedra olhando o céu. Talvez mais andorinhas tontas me entontecendo, como agora.
Uma andorinha não faz verão... Mas eram dezenas!

domingo, novembro 15, 2009

hi.
zemigui is my nick.
yahoo.com.br is the site.
or gmail.
write me and talk about the next championship..
the shipping...
the life...
and friendship...
so many ships going to open sea...
:º)

domingo, setembro 27, 2009

Presente prateado, Laço dourado


Ela anotava os preços dos novos cremes na agenda pequena e prateada.
Ele disse que a agenda parecia um pacote de presente de natal. Ora. Logo ele que usava aquelas gravatas que ela detestava. Ele nunca usava as gravatas que ela comprava. Ela sempre comprava gravatas baratas, mas eram bonitas. Presente de Natal...
Pela janela da loja viu as árvores balançarem, folhas serem arremeçadas contra tudo. Por que ela dispensou o carro? Por que disse para ele que não precisava que ele a buscasse? Agora o mundo ameaçava acabar e ela naquele lugar sem marquises e sem táxis. A porta se fechou atras dela quando ela finalmente pensou em pedir para vendedora chamar um carro. Ela gastava tanto ali, não seria nenhum favor especial. Mas a porta se fechou atrás dela e ela não ia voltar. Olhou o céu cinza se revirando em núvens quase roxas.
Tirou o celular da bolsa, também prateada. Ela gosta de coisas prateadas. Menos as gravatas caras dele. Caras e feias. Com cara de laço de presente de Natal. Riu de pensar isso. Presente de Natal...
O vento a supreendeu. Quase ficou cega de tanta poeira. Sentiu a porta de vidro balançar atrás dela. Mas seguiu em linha reta até o outro lado da rua. Do outro lado as árvores formavam uma marquise de galhos e ramos, tudo assobiando ruidosamente.

Ele estava no trânsito. Não tinha nada que estar ali. Tinha uma reunião as quatorze horas e agora já eram onze. Em São Paulo, ele aprendeu logo que chegou, não se pode confiar no trânsito. O trânsito sempre piora, se não para de vez, quando chove. O céu cinza onde núvens quase roxas se reviravam não deixava dúvidas. Logo tudo iria parar. O céu já ia se mover para o chão na forma de água e tudo iria parar.
Ela só sabia complicar tudo. Nunca dava atenção aos seus conselhos. Depois se metia em apuros. Dispensar o carro. Só para não se sentir presa. E agora iria ficar presa de todo jeito onde estava. Mas ela não dá o braço a torcer. Bom Deus, ela já devia estar na rua procurando um táxi, ela que tinha medo de temporais.
O semáforo avermelhou e ele parou. Percebeu sua respiração acelerada. Ele até a via na chuva, nervosa. Andando sem olhar para os lados naquele trânsito horrível de São Paulo. Tirou o celular do bolso e olhou. Estava desligado. Ele não suportava atender ligações no trânsito. Os empregados não sabiam resolver nada sozinhos.

Ela cruzou a rua, passou pelo paredão de ficus e desceu por uma escada quase escondida que levava à avenida mais abaixo, escondida pelas árvores. Tudo adivinhado por ela. Tantas vezes passou por ali. Não sabia como sabia que havia uma escada e que ia até a avenida. Acelerou o passo. O movimento das árvores se movendo sobre ela como uma mulher gigante abrindo os braços. Como a mãe vinha cobrir os filhos de noite, arrastando um grande cobertor de lã cinza. Essa agora. A mãe. Não lembrava dela desde que a tia morreu. As duas eram inseparáveis. Só tinham uma a outra. Era o suficiente. Seu coração acelerou e tremeu e ela sentiu o rosto molhado. Chuva? Elas sempre tinham uma a outra. Quando a mãe morreu ela teve medo que a tia morresse logo depois. Não morreu. Se apagou, triste. Eram inseparáveis. Uma lufada de vento interrompeu seus pensamentos, quase a derruba, e ela para alguns segundos e chora. Chora de um modo estranho e infantil. Ela era adulta, nada de choros. Sem lamentos. A mãe e a tia já tinham morrido fazia quinze anos. Ao chegar à avenida ficou com medo.
Avenida larga, duas mãos, jardim no meio, quatro pistas cada lado. Vento sibilante. Céu cinza. Núvens roxas. Pegou o celular de novo. Ele não ia atender. Nunca atende. Olhou para o outro lado. Uma garoa já parecia cair.

Ele ligou o celular. Seis ligações perdidas. Nenhuma dela. Todas da loja. Esses brasileiros. Mal largou o celular no banco e ele tocou. O semáforo abriu e ele nunca atendia celular no trânsito. Os carros diminuiram a velocidade. Adiante uma árvore tinha caído. Mas o vento estava tão forte assim? Onde foi parar o celular? Olhando pra frente, tateou. Quando achou o celular seus dedos tensos apertaram varios botões. A ligação foi atendida. Antes de encostar no ouvido já ouviu sua voz. Ela estava nervosa. Firme, seca, dizendo a rua onde estava sem nem perguntar se ele podia pegá-la. Ela sempre sabia onde ele estava.
Falou o nome da avenida. Mas o que ela estava fazendo alí? Naquele lugar sem ninguem, sem lojas, sem marquises, sem táxis. Teve de frear o carro. Tinha arrancado, avançando com o carro. A árvore estava quase a sua frente. Teve que esperar um os carros passarem pelo funil que a rua virou com aquela árvore enorme caida. Tantas árvores enormes naquelas avenidas. Ela tão pequena.

Ela cruzou o primeiro lado da avenida, o semáforo lá longe havia segurado o fluxo. Mas quando chegou ao canteiro central os carros encheram os dois lado da avenida. O capim alto do canteiro central molhava de leve as pernas da sua calça até quase o joelhos. Devia ter votado no outro candidato. Os canteiros ficavam sempre impecáveis no tempo dele. A chuva começou a cair. Leve ainda. O vento ainda forte. Cobriu sua cabeça com a agenda. Do outro lado da avenida um rapaz com um guarda-chuva enorme. Nenhuma marquise por perto. Então dois carros quase bateram ali adiante. O fluxo dos carros parou. Ela e dois meninos correram e cruzaram a rua. Os meninos de uniforme. Gritando e rindo. Ela se pegou rindo também. Já fazia tanto tempo que não corria. Nem na chuva. Nem com os filhos. Nem na praia. Não ía a praia já fazia quinze anos. Eles sempre íam a praia. Eram inseparáveis. O celular tocou. Ele não a via. Estava na avenida. Mas como não via?

Ele olhava, nervoso. A chuva apertando. Aqueles dois idiotas brigando a sua frente, depois de quase bater. Todos querendo passar para pegar suas esposas, filhas, mães, namoradas... Mas ele não a via. As pessoas se protegiam sob as àvores. Então ele viu uma agenda prateada brilhando à luz dos faróis dos carros. O dia virando noite. Era ela com a agenda. Ela cortou o cabelo. Eram longos os seus cabelos. Ele procurava os cabelos longos ainda. Avançou entre os carros e buzinou. Ele nunca buzina no trânsito. Só se for muito preciso. Só se for urgente. Ela o procurando. Os cabelos curtos. A roupa fina. Ela o viu.

Ela correu para fora da proteção da árvore. Olhou através do vidro da janela do carro. Ele estava apertando os olhos para vê-la melhor e então abriu a porta. Ela entrou correndo. A chuva parece que desabou justamente nesse momento. Ela fechou a porta. O som do mundo abafou. Ela ainda agitada. Ela quase gritou como os meninos com uniforme. Apertou a bolsa e a agenda contra o corpo enquanto se arrumava. Ele se curvou para falar alguma coisa. Ela se esticou e beijou seu rosto, sorrindo. Ela não gritou. Achou melhor não gritar. Mas não percebeu que sorria. E depois de o beijar sorriu mais.

Ele não lembrava mais o que ia falar. Sentiu o rosto quente e afogueado dela encostar no seu. Sentiu seus labios molhados. Chuva talvez. Sentiu seus lábios. Sentiu a pressão deles. Sentiu o cheiro do seu baton. Do seu perfume. Sentiu seus cabelos roçarem no seu rosto. Sentiu a respiração dela. A respiração dela. E sorriu. Aquele beijo quente, rápido, como quando ele a encontrava em frente a escola, ela de uniforme azul escuro. E sorriu.

Ela meio distraída do que fazia o olhou. A chuva desabava, rios desciam pelos vidros do carro, rosnavam às portas, trovões, buzinas, um caos os envolvia. E ele sorria para ela. Ele pareceu um menino por instantes. O menino que a buscava na porta da escola. Ela o achava no meio das outras pessoas pela cara sorridente de menino. E ficavam rindo um para o outro, dois bobos inseparáveis. Dois namorados. Ela continuou rindo, rindo do jeito dele.

_ Porque está rindo? disse ela, sorrindo mais e esperando alguma resposta que a fizesse continuar sorrindo.
_ Por que estou aqui com você! disse ele sorrindo mais também.
_ Vamos pra casa? disse ela, um pouco trêmula de frio.
_ Vamos! disse ele, sorrindo feliz.

E foram felizes o que puderam até ao menos o fim daquele dia.

sábado, julho 11, 2009

Rodas Vivas

A noite caiu tão rapidamente hoje que mais parecia que o chão se movia rumo ao céu.
E pode ser isso mesmo.
A Terra se move no céu. Que céu? O céu moderno, vazio e negro. O céu que é feito de ausências, de espaços vazios, de desertos silenciosos entre estrelas distantes e mudas, entre os planetas sem vida.
Mas eu estou aqui, na terra da Terra e não percebo nada disso exceto pelo que penso a respeito. Talvez um dia outro céu surja e enterre para sempre esse vazio ilustrado. Talvez volte a ser um espaço lustrado, cheio de luz e desejo de luz. Cheio de Deus, cheio de sentido onde não devia haver sentido. Todo ligado como uma rede neural, ligado por vãos elétricos. Todo ligado e se movendo ao mesmo tempo como um rio. Ou como o mar. Melhor dizendo, como pedaços do mar que oscilam de um lado para outro levando tudo que esta nele a parecer que está parado dentro dele mas na verdade se movendo de um lado para outro. Como um pedaço de algodão branco cobrindo o tabuleiro de uma baiana que se move ladeira abaixo, que se move como que parada, tudo oscilando na sua oscilação e tudo parado, quase no limite da estabilidade, como um pedaço de algodão cobrindo o tabuleiro e sendo suspenso a cada passo pelo ar que encontra no seu caminho, a cada queda ladeira abaixo que o todo tem e ao mesmo tempo não cai. O Universo mais instável que o desejado por nossas almas medrosas de tao pouca calma. Tudo se move como a sombrinha da equilibrista que caminha e dança na corda bamba, no arame. Wireless Life. Não somos mais que minúsculos seres, crew transparente, imóveis dentro do mar que oscila, dentro oceano que circula, dentro da Terra que gira. Em torno de si. Em torno do Sol. Em torno do centro do caminho do caminho de leite derramado. Tudo se afastando de um centro: o grande cucuruto da cabeça de uma gigantesca baiana em pleno carnaval de rua do Rio em 1970. Grande evolução da grande ala da grande escola de samba Imperatriz Leopoldinense na periferia da periferia da periferia onde mora gente humilde vista do trem. Alguém chora no trem: somos todos flores baldias na periferia do céu.
Mas a Terra se move, levanta sua terra e carne rumo ao céu, que se enche de carne e vida.
Somos isso.

segunda-feira, agosto 18, 2008

quase a estação de trem de Shibuya...

E vc não falou do meu cabelo.
Que tem?
Mudei! Você não viu a diferença? Tinha as pontas roxas antes...
Eh... reparei, acho... não prestei muita atenção nisso.
Hum.... não prestou atenção... então porque estava olhando tanto pra mim? Por que?
Seus olhos...
Hahhaa... meus olhos... são como todos os olhos... comuns e escuros...
Ah... não são, não...
e um silêncio afirmativo de quem falou “a” verdade
...
Ah...
encabulado, olhos se arregalando e brilhando úmidos enquanto os desviava cheio de pudor e olhava aparentemente para o chão quando na verdade tentava guardar aquela frase e olhar do outro para sempre, para os dias de inverno ou tristeza extrema
...
De repente, pra mim, se tornou impossível ver outra coisa...
caminhando juntos, abraçados, na noite escura, luzes de postes mortiças e escorrendo na rua úmida da garoa...
Mas agora você está olhando para outra coisa...
sorrindo, contido, da provocação quase infantil do outro...
Claro... caso contrário podemos cair em algum buraco...
os dois caminham lentamente rumo às ruas mais escuras ainda, na direção da estação de trem, olhando vagamente para a frente...
É... então, agora... você não está me vendo...
rápido, para sublinhar a ausência total de dúvidas
Errado de novo.
...
e os olhos se abriram mais ainda como que para ver algo muito vasto e a tal ponto que mal conseguia ver as ruas molhadas, se deixando levar no abraço, como um veleiro carregado pelo vento, sem medo algum

sábado, julho 12, 2008

O que salva


Nada como o por-do-sol, embora não exista isso: "o por-do-sol". Pores-de-sol nunca são iguais. Durante todos os dias dos meses dos anos das nossas vidas o sol segue o mesmo curso, produz as mesmas sombras, ofuscamentos, cores e nunca de modo igual.
Olho pela minha janela do meu quarto atual na minha casa atual da minha vida atual e já me sinto mais pobre por lembrar que não terei essa visão vasta na minha outra futura casa da minha futura próxima vida, não terei esses pores-de-sol de céu de estúdio... Mas também sei que um dia, lavando roupa num fim da tarde, o sol vai se infiltrar entre prédios e árvores e vai pintar de dourado minha área de serviço fazendo, assim, até uma área de serviço ser um lugar lindo porque só dali se vê o Sol se por.
Talvez porque o dia se finde a gente ame o por-do-sol. O dia foi lindo e feliz e o sol é uma apoteose final, dizendo que dia lindo tivemos. O dia foi horrível? O sol nos diz que ele acabou e que outro virá, assim brilhante e lindo. Mas se o dia for chuvoso e feio e frio, ainda assim, a luz se esconder dramaticamente no fim do fim do dia me deixa uma certeza. O sol vai voltar. Não há nada mais seguro, mais certo, mais confiável que o sol se por de novo. Todo dia.
O nascer do sol também é assim, mas eu às vezes estou dormindo, às vezes vagamente acordando, às vezes distraído cuidando de mim, de alguém, do dia que virá-está-vindo. O por-do-sol, porém, mesmo que me pegue ocupado, de surpresa, por não ter visto o tempo passar, o por-do-sol me diz adeus e eu não resisto a olhar o seu adeus. Não é um adeus de verdade, é mais um fim de filme seriado na matinê. Ele vem amanhã e depois e depois e depois... às vezes indo suave e lilás, outras em chamas e sangrando. Alguém disse que há os pores-de-sol que fazem você procurar pela assinatura do autor no canto da janela. É um lugar comum dizer isso. É um lugar comum cada janela que se incendeia? Nada me faz parar o que estou fazendo como o por-do-sol porque a vida é sempre mais importante que tudo.
Eu não estou falando do por-do-sol apenas porque é algo que salva meu dia, mas porque você, tão solar que vai sendo sempre, me restaura a confiança nos outros homens sendo apenas você como o sol é ele mesmo. Ao ver você eu fico feliz, e se não o vejo eu não sofro porque verei. É uma certeza no meu coração que ao vê-lo sentirei isso que sinto quando vejo o sol se por. Não temo na sua ausência. Não temo, na sua presença, a sua ausência. Ninguém sofre porque o sol se põe. A gente se alegra com o céu em chamas, se alegra quando ele esfria, se alegra quando fica lilás, azul, azul-escuro-com-estrelas e por fim negro. Mesmo quando acaba não fica um rastro de tristeza porque só sendo assim, tendo um fim, ele é tão lindo. E amanhã terei mais. Se pudéssemos ser assim com todas as coisas a vida seria menos dura. E eu nunca tinha pensado nisso antes até conhecer você que me anima tanto quando vem quanto me alegra não vindo, apenas sendo você em algum lugar, como o sol que continua sendo o mesmo, mesmo eu não vendo e isso me acalma: saber do sol e de você. Nunca mais uma garrafa de vinho vai acabar como antes acabava. Nem o sabor do doce de natal que só no natal sua mãe faz. Nem o cheiro da madeira nova no assoalho da sala voltando ao longo dos anos no verão. Nem o perfume de um água-de-colônia quase sumindo no ar no caminho entre o quarto e o elevador. Sempre há mais vida, ela vem, ela vem e vem e não temerei mal algum. Sempre deitarei em verdes pastos mesmo quando não puder fazer isso agora. E sempre beberei o vinho mesmo que não o beba já. E sempre serei feliz com você mesmo que você esteja noutra cidade ou estado ou país ou vida. Quando a noite avançar e ficar escura e fria e eu nem pensar em um por-do-sol, ainda terei os pores-de-sol todos quando eles vierem. E se eu chamar você , um pouco ansioso, em vez de aguardar, é porque eu sei que os pores-de-sol são do mundo, mas você não. Bem, sim. Você é do mundo. Mas no céu-da-boca da minha alma que é quem chama você, você é meu por-do-sol pessoal. A alegria da certeza da alegria que eu posso tocar.

domingo, junho 29, 2008

À beira, o mar...

amar o semelhante...
é descobrir a completa ausência de semelhança e mesmo assim amar...
e ao amar o diferente descobrir nele as mesmas fraturas que encontramos em nós...
perigos futuros de trinca, ameaças veladas de rupturas,
veios sem ouro ou áura onde o mármore poderá romper...
e mesmo assim, a beira do caminho escarpado, da trilha desbarrancada, da ponte suspensa
mesmo assim, diante da suspensa tensão, frouxa de cabos carcomidos,
mesmo assim, a beira de um abismo que olha o abismo do mar...
mesmo assim, a frente do colapso total de terraços quadriculados de palacetes abandonados
mesmo assim, na iminência do escuro, a fraca língua de fogo de fraco lampião...
mesmo assim, ao adivinhar a tênue e esgarçada humanidade, semelhante, diferente, minha...
amar.

sexta-feira, maio 09, 2008

O Amor II


Quando você vem e diz "acredite em mim"
Eu acredito!
Mesmo que tudo diga não...
Mesmo que meu sexto sentido sinta outra coisa
Mesmo que você esteja mentindo
Ou omitindo
Ou me ilundindo
Ou apenas se divertindo
O que você não sabe
É que eu sei que nada do que você diz é mais verdadeiro do que aquilo que eu vejo em você
Quando você vem e me diz "acredite em mim" você não sabe
Que eu ja acredito desde sempre
Desde o momento que vi você e você disse, sem dizer uma palavra: benvindo!
E eu me senti benvindo à sua vida
Você disse benvindo e eu acreditei
E acredito!

terça-feira, março 25, 2008

O amor

O amor.
E me perguntam porque falo tanto de amor. Mas... falar de que? Tudo o mais será deixado para trás quando partir. Tudo o que se consquista tem que ser abandonado um dia. Menos o amor. O amor é tudo que doamos, que entregamos, que dividimos, que não guardamos. Só se leva desse mundo o que damos. Só se leva o amor desse mundo concreto, nada abstrato, porque o amor é o golpe fatal na ilusão do ter. Esse mundo é o palco da grande ilusão, obra de prestidigitador. Lugar do pesado, do material, do físico. Do que dizem ser real. Lugar de lutas sem fim pela posse de cada bosque, rio, deserto, fonte, colheita ou pedaço de pão. Matamos por isso. Por aquilo. Por tudo que queremos ter. Mas tudo pode ser tirado de nós. Menos o que já demos, o amor.
Dos grandes triunfos só sobraram arcos do triunfo, irônicos nichos vazios de algo humano. Mesmo das grandes conquistas só sobrou o que delas foi conquistado para os outros. Santos Dumont nunca patenteou nada. Só queria que o homem voasse.
O amor não é querer, é querer o bem. É querer que quem se ama consiga ir cada vez mais longe.
Se você ama alguém, o quer livre.

segunda-feira, março 24, 2008

Adriático




A amo tanto você que isso ultrapassa tudo. O corpo. O desejo. A necessidade. E enche a alma. E a alma transborda como um açude sangrando, escapa como as raizes de uma árvore ultrapassando e absorvendo o muro.
Aguardo seus movimentos como a vela espera o vento. Espero sua doçura como a boca, salivando, língua em movimento de caça, espera o açúcar virar líquido. Espero sua boca como os dentes esperam a maciez do morango maduro, mas firme. Espero que você amadureça. A cada dia. A cada mês. A cada ano. Como o vinho tinto como seus lábios. Como uva madura e transpirante se oferece numa sala vazia. Espero você se exalar o cheiro da infância que mesmo as tábuas velhas de madeira boa ainda exalam nos dias quentes. O cheiro do seu corpo eu preciso sentir nas noites. Mesmo nas frias. Principalmente nas frias.
Aguardo... até você me chamar para a refeição como um pão fresco sobre a mesa. Não comeremos como os famintos. Saborearemos quase com santidade esse pão. E com alegria.
Porque meu amor por você é alegre e transborda meus limites, minhas fronteiras, minhas barreiras, muros e arrecifes. Me lanço no desconhecido. Me lanço no seu mar, adriático colo. Sala de seu império interior. Divino. Ave.

domingo, novembro 18, 2007

Para quando não tiver mais...

Quando não tiver mais dentes, cabelos e alguma visão, sonhos, planos e metas futuras, nem tiver como andar, comer e ir ao banheiro com alguma dignidade, quando não tiver absolutamente mais nada, ninguém e um porvir e nem a capacidade de reter memória recente...
... ainda terei todas as suas lembranças. E você sempre chega nelas correndo, olhos brilhantes e uma vontade discretamente oculta de ir comigo a qualquer lugar. E iremos.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Até onde a vista alcança...

Até onde a vista alcança...
Acho que é nome de uma peça. Acho que vi uma foto com essa legenda. Não era uma paisagem, mas uma foto em preto e branco de uma cena de uma peça de teatro. Pessoas pareciam estar presas no tempo. Não me refiro a foto. Nem ao fato de ser um flagrante ou foto de ensaio de uma peça de teatro. Havia algo de eterno, sem fim, sem término, sem propósito no olhar das pessoas. Não eram pessoas de verdade, eram personagens. Então o que eu via na verdade eram os rostos de atores. Mas atores, principalmente em preto e branco, têm o dom de virar outras pessoas. Ao menos seu olhar vê o que outras pessoas vêem. Bem, essas pessoas viam o eterno. Ou o sem fim. Ou o sem término. Ou o sem propósito. Quando tudo já foi feito e só sobra o tempo deve ser isso o que se vê. Alguma satisfação pelo que já foi feito? Algum desalento pelo fato de que nada mais será feito? Alguma resignação pelo tempo todo que ainda virá enquanto estamos aqui, olhar distante, não fazendo nada? Até onde a vista alcança pode se ver muito, tudo ou nada.
Por que ainda escrevo? Por que sinto quando escrevo como se fosse um viajante explorador de filmes B? Por que colo fotos como adolescente em um caderno de férias? Por que venho até aqui para sentir esse frio que eu já sentia na infância apenas olhando pela janela? Pelo vidro frio da janela. No frio dormindo o rosto apoiado no vidro de uma janela dando para um dia nublado e sem hora certa num sem tempo, por que? Por que a crença de que algo acontece mesmo que eu não veja?
Escrever para mim é tentar ver, ver o invisível, o que eu não sei ainda sobre mim. Mesmo em momentos como esse... principalmente em momentos como esse em que só existem horizontes planos e verdes sob um céu nublado de luz difusa sem pontos de referência. Onde o norte? Onde o sul? Onde o poente? Onde o nascente? Não importa onde o crescente, não procuro a direção de Meca. Tadmekka? Então, assim, seguindo a minha natureza onde creio haja algum resquício da natureza Divina, a não natureza, eu ainda me levanto e vou até a borda do palco-varanda e olho, procuro, contra meus instintos que me querem em paz, tento re-conhecer o mundo e vou até onde a vista alcança.

domingo, abril 08, 2007

Pompéia


E depois de todas as tempestades, paixões, desesperos, desejos, sonhos e fugas: você de novo. Suas frases confusas, seu andar perdido, seu jeito de criança, seu olhar desconfiado, sua risada de quando tinha seis anos, seu cabelo, sua boca, seu cabelo, seus olhos, sua boca, seu cabelo, sua boca, seus olhos, seu andar perdido, sua surpresa quando eu choro, sua boca, seus olhos, seu andar para longe de mim, suas críticas ao meu trabalho, ao meu café, à minha comida, só você pode criticar o quanto quiser: seu amor todo, seu maior elogio. Seu olhar perdido, seu andar de quando tinha dezesseis anos, seu cabelo de personagem de mangá depois da gente fazer sexo, sua boca confusa, seu abraço apertado, seu amor confuso, seu amor perdido, seu amor de dezesseis anos, seu amor de criança, seu medo como de um personagem de mangá, supreso, seu medo atrás da coragem, sua coragem de personagem de seis anos. Eu daria tudo pra você virar uma lembrança em meio a névoa da cidade de São Paulo, mas você é minha névoa, minha cidade de São Paulo, minha lembrança de mim. Você nunca mais descola de mim. Eu surpreso choro. Criança de seis anos. Amor de dezesseis. Em meio ao desespero de perder você eu virei o rosto, mas os prédios envidraçados da Paulista só refletiram os outdoors onde você se infiltra, lembrança perdida confusa desconfiada supreendida ao me ver chorar de rir. Ao me ver rir por chorar só porque cantei um trecho de uma música do Cartola. E você e sua supresa ao me ver chorar ao falar poesias num boteco perdido numa noite do Paraíso. Paraíso perdido, você não volta. Você não parte. Você me reparte e leva embora a melhor porção do que sou. Nós olhando a Lua depois de fazer sexo como personagens de mangá perdidos na noite confusa que é se ter dezesseis anos, seis anos, dois mil e seis anos. Na noite confusa que é se viver em anos quando o coração sente séculos e suspende suas batidas por alguns segundos... como um sonho, você voltou. Você volta.
A cada vez, menino de seis anos, vejo você sorrir e esqueço que é só uma lembrança, um pedaço do tempo que não se move mais. Caminho por Pompéia numa manhã de um novo século fingindo não esperar nada.

domingo, novembro 19, 2006

o platônico e o patético



por que chamam de platônico o amor covarde que não se move em direção alguma?
eu amo por amar
amo o amor
amo amar

amo sem esperar troco
nem contrapartida
amo sem garantias
amo sempre
amo tudo

amo o que é belo
amo quem é belo
amo idealmente
amo a idéia de amar
amo o ideal que só vive na alma

e quando amo eu dou um passo
se for um passo em falso?
se for um passo no vazio?
se for um passo e um tombo?
arrisco
cruzo o risco imaginário
risco seu nome em mim

me movo em sua direção
antes tudo se move dentro de mim
a perfeição que adivinho procura você
platônico patético plutônico
do inferno da dor para você

não importam as sombras e os fragmentos
meu amor por você me faz inteiro
meu amor por você ilumina a vida
meu amor por você não se realiza
meu amor por você é.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Companheiros de viagem


Às vezes o caminho vale mais que o destino a que ele leva.
Às vezes valem mais os companheiros de viagem que tornam a noite mais quente.
O cheiro molhado de floretas.
A respiração cadenciada pelo motor.
A vertigem e o vento.
O cheiro molhado...
E o vazio que exala da jornada torna-se uma dor leve se você apóia a cabeça no meu ombro.
Cheiro de couro e lã.
Cheiro de orvalho e lona queimada.
Cheiro de frio e do seu pullover.
Cheiro de café e sanduíches de presunto.
Risadas apressadas na parada de ônibus.
O abismo vazio de nós do lado de fora.
A estrada que não acaba no dia que não nasce inteiramente, nós juntos sem pressa.
Nada de pressa.
Que tudo finde em outro dia.

Fora Dentro



Assim agora.
Parado em movimento.
"O trem que corta o silêncio como um tunel..."
Um momento estanque entre os vórtices: fora e dentro.
O corpo, uma plataforma vazia entre trens-bala.
Balas perdidas.
"Meu peito até
parece sabe o que?"

CLICK!


.
..
...
sibila o céu
ou o silêncio é faca
o vento sopra a relva
sempre o céu, sudário
zinco, flandres
zombam e assobiam as caixas dos corrêios de bocas vazias
silêncios...
os céus zunem sobre nós
sempre os céus
foge o firmamento
resta a relva
soturnas sombras diurnas
e rosnam as águas turvas
sensório rio, sinto
frio e fome somam-se
fissura...
fotofobia
fotossíntese
verde frio, fixo
...

CLICK!

sábado, setembro 02, 2006

Quarto minguante


Dormem os seixos silentes sob a profusão faladeira do riacho.
Profundamente.

Mas Eu não descanso.
Como a Lua, chego até você no silêncio.
Como um espelho numa sala vazia.
A noite escorre caudalosa enquanto todos dormem num quarto miguante.

terça-feira, março 07, 2006

Fique

Tudo passa...
Tudo passa rápido...
Tudo passa rápido demais por mim...
Me movo junto, mas não tem jeito, não...
Meu tempo é outro, é nele que vejo você melhor que você se vê...
Queria poder parar, queria poder não ver, estar no mesmo tempo que você...
Meu medo que você passe, meu medo que você me passe sem ver...
Fale mais devagar, ouça mais devagar, olhe mais devagar...
A vida corre sozinha, sem nós precisarmos ajudar...
Façamos o contrário, paremos o tempo agora...
Por favor, só agora, só o agora, só o agora...
A ágora se enche e esvazia de almas...
Só o agora, sem pressa, sem o fim...
Meu amor é grande demais, amor...
Grande demais pra correr, amor...
Pare um minuto, um minuto-luz...
Um minuto luz comigo...
O mundo passa...
Ele passa...
Fique...

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

O meu ideal de um primeiro encontro


Todas as janelas se abrem e não há mais paredes e enquanto as cortinas esvoaçam pela sala e os lustres de cristal cantam enquanto brincam de balanço-e-pêndulo o tempo se perde de si mesmo e pode ser qualquer dia de qualquer mês de qualquer século porque o cheiro da grama molhada da chuva não muda, a mais delicada das sensações não muda impermeável ao tempo e pouco importa que nada colabore e que o mundo seja grosseiro e os homens tenham se tornado brutos de novo pois nesse momento em que o natural e o artificial se abraçam na brisa você acredita que a felicidade nesse mundo é possível e eu verei tudo isso nos seus olhos sabendo então: nos encontramos finalmente! E eu serei o litoral da América e você será o litoral da África e fingiremos viver em Pangéia. Só fingiremos ser algo porque aquilo que seremos de verdade não poderá nunca ser dito.

domingo, fevereiro 05, 2006

Monument Valley


O que você é ainda não sei. Tento saber por amor apenas.
Sua delicadeza me supreende sempre. Como algo tão suave muda meu relevo?
Os terremotos são meus, me transformam quase ao ponto da transfiguração.
Mas os ventos são seus, polindo montanhas e vales em silêncio, sem se anunciar.
O que sei é o que você provoca em mim.
Geleiras rasgando encostas ao longo de milênios, rios cavando "canyons", chuvas riscando pedreiras, enxurradas transportando planícies. Estrelas mudando de lugar, praias se espreguiçando nas bordas do mundo, nunca as mesmas sendo as mesmas.
Tudo em você me vem como a brisa noturna, me fazendo sorrir enquanto durmo.
Só conheço em você o efeito que provoca em mim. E só por sua sombra, e só pelo eco de sua voz, e só pelo ar que se desloca quando você passa eu comecei a amar.
Tanto tempo até perceber que como fui cavando um vale em mim para você.
Todos os sinais que percebo...
Noturna flor outonal na brisa fresca...

sábado, fevereiro 04, 2006

Arsênico ou As aparências enganam

As aparências enganam.
Mas quem disse que sua aparência me interessa?
Sua essência... como o lodo de um pântano, como a água em velhos prédios, como o arsênico em lentos assassinatos, como a lua furando o zinco, como o sol queimando um tecido escuro. Você não sai mais de mim.
Isso não é uma paixão, é o amor.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Corações abertos

Confiar é o único modo de conhecer.
Mas se conhece demais às vezes.

A traição de um amigo é sempre a pior. Ser crucificado com um beijo, ninguém merece coisa tão feia.
Ninguém mesmo.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Como o cheiro de tangerina nos dedos...


Na noite ainda quente o vento fresco e perfumado me convida para parar e dormir. Ainda não.
As nuvens foram carregadas e o céu estrelado assopra o silêncio em nós.
Tudo se move como um grande rio na noite. Estremeço.
Temo. Tremo diante de tudo que ainda é tenro e tem esperança. O cheiro das flores que vão abrir amanhã, as pequenas folhas de alface no miolo, as gotas do sumo de tangerina escorrendo em meus lábios, seus olhos me olhando de volta. Eu tremo observando minhas novas e jovens esperanças.
Que magia ou truque foi esse que me tirou toda a segura velhice que acumulei às escondidas e me deixou de novo com brilho nos olhos.
Volto a tremer como as gotas de seiva nas pontas dos ramos que se movem ao vento. O vento se perfuma, o vento nos convida a parar e dormir. Me apoio no seu colo como uma criança cansada de rir. Sua voz sopra as nuvens e todos os segredos se abrem como damas da noite.
E agora eu durmo porque só assim se sonha.

terça-feira, janeiro 17, 2006

A Certeza da Casa

Nos dias quentes penso no passado quando, então, a vida era mais fresca e cheirava canteiros de margaridas. A vida parecia grande demais e amedrotava. Só o cheiro do jardim e a certeza da casa salvavam... Hoje a vida parece pequena às vezes e amedronta bem mais. E só algumas esperanças ainda verdes salvam... pelo menos até o próximo nascente.
O amor, como o leite, tem que ser dado logo. Ou se volta contra o órgão que o produziu...
Num domingo como esse a vida não parecia servir pra nada além de murchar triste. Mas, veja bem, bastou um fina chuva se demorar o suficiente para as rosas do jardim da vizinha chegarem até meu quarto e me fazerem sorrir de novo só de lembrar de quem faz do meu nome música. É só um nome, mas se transforma num riacho murmurante, enchendo o ar de umidade, quando vc diz.
De repente o passado se estica como um lençol fresco, eu me deito, presente, e fecho os olhos. De novo desejo o amanhã. E no amanhã, nós.

domingo, dezembro 18, 2005

Consoloção às seis.

Faz muitos anos eu e uma amiga tentávamos chegar, um pouco atrasados, ao teatro de Arena Eugenio Kusnet. A gente sempre chegava horas antes para arrumar tudo. Então, em frente a igreja da Consolação, onde tem um semáforo, um indigente pediu um cigarro, depois fogo. Agora, dez anos depois, fico na dúvida, mas acho que era um travesti. Minha amiga que fumava parou, deixou que ele tirasse o cigarro do maço, protegeu o rosto dele com a mão (ventava pacas) e acendeu. Ele tragou com prazer, olhou pra ela e soltou, como se fosse Bete Davis falando: obrigado, você é chiquerrérrima.
Vivo lembrando disso. Agora mesmo lembrei. Por causa dela, por causa dele, por causa da minha surpresa. Em meio ao caos de São Paulo às seis, uma gentileza.
Nunca mais consegui usar a palavra 'chic' naturalmente.
E não me peça explicações...

Seixo Polido

Sua boca, meu nome...
Sibilando como o vento entre telhados na noite
Rosto antigo, presença nova
Freqüenta meus sonhos
Todos os dias cruza a abóbada
Em ciranda, Lua em noite clara
Sorrindo sorrisos de charada... Eu decifro e devoro
Na sua boca meu nome rima com céu
Você diz tudo, você silencia
Seu sorriso se espalha lento, mel
Som de chuva, vento, asas
Um anjo luta: Miguel!
Diga de novo. Diga-o novo
Faça-me novo para poder provar
Mel com gosto de flor de laranjeira
Flores de núpcias fazem sentido
Nos lençóis brancos, seu sorriso quente
Nomes são apenas sons que adiantam um passo o que estava entre as fileiras
Mas meu nome falado por você, polido como seixo, rola na correnteza do meu sonho...
Diga de novo... me tire das fileiras!

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Rodamoinho

A vida tá rodando mais que baiana em frente à comissão julgadora.
Fico tonto.Vou tomar um café pra acordar.
Depois sair usando uma camisa vermelha que me faz ferver.
Pelo menos.
Tá sol.
Tá frio.
Tá longe, longe quem aquece o dia e intimida o sol.
Mas fazer o que? Olhar menos essa baiana rodando que vai dar-me enjôo... Eu me conheço.
Podia ser suco de laranja com acerola, mas só tem café.
"Roda viva, roda gigante, roda moinho, roda pião."
Meu coração quase cai do tabuleiro da baiana.
E "Essa é minha vida!"

A fôrma do pão


minha boca.
pão.
minha fome,
João
minha língua.
minha língua
forja a fôrma.
a fôrma forma o pão.
minha boca,
minha fome,
João.

Domingo de verdejar ao sol.

Sou apenas alguém que observa os dias...

Domingo de verdejar ao sol.
Dia lindo.
Céu sem fim.
Vizinhos exagerando no volume.
Cheiro de churrasco onipresente.
Passarinhos cantando, pitangas cozinhando no chão do jardim.
Formigas.
Orquídeas.
Depois silêncio.
Depois alguém joga bola na calçada.
Depois o céu escurece devagar, aí a casa apaga.
Roupas colhidas frescas do varal.
Cheiro de sol e de sabão em pó surf verde plus.
Agora ficou mais escuro.
Feijão fervendo.
A tela azul do orkut.
Poesias alheias no meu fotolog.
Por um segundo, quase, não sou refletido no espelho.
O início vazio de tudo.
Zé Ninguém, bem te vejo. João-de-barro. Adão.
Mais silêncio.
Saudade de quem não está, de quem vai sair, de quem não volta mais, as perdas do dia.
A brisa move as cortinas.
Um sopro fresco, você falando em meu ouvido.
Em algum lugar, uma festa.
Uma criança que ainda não sabe mentir ri um riso teatral e saboroso.
Damas da noite prontas para o baile.
Ouvir estrelas.
Num céu assustadoramente claro, estrelas gritam: “Eu estou aqui!”...
Os ganhos da noite.

Vendo King Kong, o original. Amores impossíveis.
Sou assim.

Rima-Solução

Rima-Solução


Achei uma rima para coração.
Uma rima e solução.
Pão, solução, coração, balão.
Canção.
O mundo esfria, o cheiro da cozinha da casa da mãe ressurge num instante fugidío, como o sol que se reflete se reflete se reflete e se eclipsa na íris, um ponto escuro.
O silêncio cheio de ruído da chuva no jardim.
O leito branco, seu sorriso rubro.
São Paulo emudece gentil, só um instante.

A cotovia canta. Não, não foi a cotovia, mas um rouxinol. Sim, foi um rouxinol. Sim.
In the night, a nightingale.

É noite, tenho certeza...
Feche os olhos.
O silêncio do jardim escorre pesado e grosso.
Chove.
Eu canto na chuva, mas baixinho...
Das folhas molhadas, o silêncio vem caindo...
cai, cai, silêncio devagar... que o meu amor está ouvindo...

Você, quando ama.


Nem quando eu nasci cabia apenas numa mão.
Foi preciso muito tempo para me colocar nas mãos de alguém.
A grandiosidade não cabe no amor.
Grande, talvez, apenas a capacidade de proteger que vêm da percepção de que precisamos ser protegidos.
Só quem sente frio sabe agasalhar.
Só quem sente fome sabe esperar o outro comer.
Só quem teve sede sabe saborear a água que o outro bebe.
Não se deve assombrar ninguém com nosso amor, eu disse: a grandiosidade não cabe em cama alguma, nem em namoradeiras, nem numa praia ao luar...
Só quando vi seus olhos amando tanto até o ponto de tudo em você se tornar proteção de outro é que eu vi você de verdade. Seus olhos tão negros, amplos como o céu a noite, se reduzindo a um abraço, se reduzindo a um movimento de pálpebras, se reduzindo a um reflexo na íris, reflexo de todo o céu estrelado.
Eu invejei aquele momento que não era meu, o quis pra mim.
E ainda quero.

Sou um andarilho.


Sou um andarilho.
Olho para trás e vejo todos os lugares, todas as pessoas.
Tudo fica para trás muito rápido. Fico feliz quando as pessoas acertam o passo e ficam ao meu lado o quanto podem. É muito difícil sendo como eu sou.
Eu me apego, paradoxalmente. Ninguém nunca vai embora de verdade, eu me movo! E levo todos comigo. Nunca esqueço ninguém.
Me choco com as rejeições por isso, esse desejo de exclusividade de alguns. Mas já entendi que na vida é assim: as pessoas escolhem quem conseguem levar. Eu carrego todos. Até meus inimigos estão comigo. Todo o mundo. No café da manhã ouço-os conversando. Do ônibus vejo-os na calçada. Os outdoors servem como porta-retratos deles. Os posters do metrô. Os bancos vazios nas estações. Eles estão em todo lugar porque estão comigo.
Às vezes pesa, geralmente não. As pessoas estão na minha corrente sangüínea, nos meus pulmões como a nicotina no pulmão dos fumantes. Como chumbo acumulado nos ossos. Como cabelos presos no crânio depois do fim. Algumas estão no meu coração. Mal de Chagas de Cristo. Estão lá para sempre por amor. Um coração inchado. Acho bom. Pior que um coração vazio não existe.
Já me acusaram: você ama demais. Amar não precisa de advérbios. Não devia precisar.Também me acusaram: vc nunca se estabiliza. Tinha medo. Podia virar uma estátua de granito como aquelas do cemitério do Araçá. Algumas são lindas, mas não estão vivas.
Ironias incontornáveis dessa vida torta, tinha tanto medo de me tornar um acomodado que agora não sei como fazer isso: me acomodar. Talvez devesse. Ter uma casa só. Ter um lugar fixo onde eu soubesse sempre onde o sol vai bater para por as plantas e tirar as fotos. Ter sempre a mesma janela, a paisagem mudando sutilmente. Ter você se apoiando na janela pra ver a mesma Lua.
Eu tenho procurado tanto e tanto e tanto e tanto e vem vc e tudo está dentro dos seus olhos. Tenho até medo de desejar seus olhos. Se os perco, tudo tudo tudo tudo vai junto. Mas o que eu já sabia agora eu vejo: quando se encontra outra alma como a nossa o universo deixa de ser um espaço vazio e se torna um lugar cheio de estrelas. Então por que sinto medo? "Feliz daquele que foi amigo de um amigo, que pode chamar outra alma, sua"... Medo de não poder chamar outra alma, minha.
Não se deve por a própria felicidade nas mãos de outro. Temo, porém, que já seja tarde e eu já tenha posto o meu coração nas suas. Não precisa dizer nada, se não souber o que dizer. Mas se sentir que deve dizer algo, diga meu nome. Na sua boca me sinto perfeito.
Só diante dos seus olhos eu existo calmamente.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Referedumdum

Vou votar sim no referendo.
Não vamos fazer outra Revolta da Vacina pra descobrir tarde demais que isso é fruto de nossa ignorância.
Armas matam. Bem, queixadas de burro, facas de churrasco, peixeiras (que servem pra limpar peixe), martelos, foices, paralelepípedos e mãos de karateca também porque a intenção é que vale. Mas a intenção da arma já existe antes da compra.
Aos caçadores, colecionadores e atiradores, procurem seus clubes e continuem atirando. Atiradores de arco e flecha não se incomodam em ter porte... eles não portam, eles usam em competições. Sejam honestos quanto a sua intenção, já disse.
Aos ingênuos que acham que uma arma vai salvá-los de um assalto. O termo assalto já diz. Tomar de assalto... nem soldados treinados escapam, meus filhos! Melhor portar um crucifixo nessas horas. É tão útil quanto. Acho que mais, se mantém vc calmo enquanto alguém que não liga a mínima pra lei ou pra vc leva coisas embora. Leva sua arma legal inclusive, basta ir ver os gráficos em tantos jornais mostrando como vc, homem honesto, alimenta o mercado ilegal de armas.
Não falo das armas do tráfico, isso As Forças Armadas deviam tomar conta... mísseis, meu Deus. Vc não vai querer ter mísseis também, neh?
E esse papo de que o governo não faz o que devia fazer e tal... sei... Um médico inépto faz vc desistir de consultar outro quando precisa? Vc é um cidadão passivo, que não acredita na mobilidade política? Tem saudades da ditadura? Gosta de se sentir seguro mesmo que às custas de sua liberdade? Mas me lembro de ter lido que menos de 5 porcento (acho q menos, mas não tenho certeza) dos presos em cadeias pertencem ao crime organizado. Eles só parecem muitos porque são organizados e se movem bem, como as alas de baianas. O resto eh de gente que ou nunca cometeu uma violencia ou a cometou porque tinha uma arma... maridos, esposas (embora elas prefiram tesouras...), filhos, irmãos, sobrinhos, padrastos, pais. Lembro do cara que matou o filho num momento de desespero... e depois definhou até morrer de culpa. Se ele não tivesse a arma em casa pra se defender de ladrões... aliás, mais esposas morrem por causa de armas "domésticas" que ladrões...
E por falar em invasão de domicilío... o Sílvio Santos não tava armado quando se livrou do sequestrador... Tá bom, vc não tem a lábia dele, mas nem o dinheiro...
Bem, tente pensar em quantos casos bem sucedidos de alguém armado que se livrou de ladrão vc conhece. Enumere. Depois enumere os casos de crianças que morrem ou matam amiguinhos com a arma do pai, de violencias domésticas, no trânsito, das crianças caidas nas calçadas dos melhores bairros de nossas cidades derrubadas por balas perdidas, dos tetraplégicos, dos amigos que morreram apartando brigas entre cidadãos decentes, etc.
Pense na utilidade de uma arma, cidadão honesto, enquanto lembra de gente bem protegida que foi alvejada. Papa João Paulo II, Ronald Reagan, Abraham Lincoln, Somoza... pra falar de memória. Já viu os seguranças desses caras ou mesmo dos bancos? Ficam de arma em punho olhando... vc viveria assim? Então pra que a arma? Sozinha, sem sua vigilância 24 h ela não serve de nada. E viver 24 h em alerta também não serve de nada. Não se iluda com essa de se proteger... vc acha que não tinha gente vigiando os céus de NY no 11/09? Pois é, mas vc acha que eh mais eficiente que eles...
A morte não precisa de um revólver, mas agradece a preferência.

domingo, maio 15, 2005

O domingo

O domingo começou barulhento. Pés decididos. Malas sendo arrastadas. Carros ligados. Mas apenas sussurros pois é domingo, seis da manhã. Só os passarinhos e os bêbados voltando pra casa falam alto.
O sol entra pelas venezianas e eu me escondo no edredon. Não adianta... o vento se infiltra pela porta, afinal é outono. Quanto mais o sol brilhar mais o vento se torna frio... e o céu azul tão limpo que parece de mentira, uma parede atrás do mundo. Um telão. Afinal o que é verdadeiro? O que é falso?
Quando vc silencia tanto sempre sinto medo. Num mundo onde tudo finda a gente tem medo. Num mundo onde é raro encontrar alguém primeiro pela alma e depois pelo resto, perder vc é perder meu único tesouro.
Eu já devia saber que é apenas silêncio e quando meu olhos grudarem nos seus como no primeiro instante da primeira vez tudo vai estar lá de novo. Duas almas tão nuas diante uma da outra que é preciso ser forte para que o pudor não nos faça desviar os olhos. Há algo de inocente em vc. E quando nos afundamos um no outro é quando somos mais inocentes. Acreditamos, inocentes, que ser feliz é simples e possível.
Não posso mais viver sem vc. Mesmo que eu fosse para o outro lado do mundo ou para Marte ou talvez até para a Morte.
Eu ainda reajo ao silêncio como a tudo desse mundo. Mas nosso silêncio não nos desliga.
Não posso mais voltar no tempo. O que veio antes daquele olhar é outra vida. E eu só quero esta que temos agora. E quando vc me abraça dizendo adeus, saiba, é quando sei que estamos juntos, unidos, atados.
O domingo me acordou só pra trazer vc... agora vamos dormir.
todos os dias o sol se põe, a lua nasce. escurece e clareia e tudo seria igual, mas...
mas agora o sol me faz bem, e a lua me faz alegre e na sombra ou na luz eu vejo tudo melhor.
os dias são melhores, eu sou melhor porque todo dia eu penso em vc. mais que isso, eu estou com vc, dentro do meu coraçao.
eu me deito e vejo seu rosto. fecho os olhos e ouço seu sorriso. deito a cabeça no travesseiro e penso no seu colo. e durmo sorrindo porque durmo com vc.
nao sei se sonhei realmente porque assim que acordo eu ja penso em vc. vejo vc. e sorrio de novo e então nao sei se a alegria q estou sentido já veio do sonho ou não. e nem ligo.
sonhar e acordar e viver e dormir no fim... tudo é como um rio passando... em silêncio e cheio de som. calmo e um continente se movendo. só porque amo vc. e o melhor de mim aparece. e se parece com vc.

sexta-feira, maio 13, 2005

Não sou o mesmo...


Eu nunca sei nada mesmo até precisar contar para alguém. Então, tentando contar algo que nem sei o que é descubro coisas enormes, caladas, dormentes dentro de mim, em algum lugar dessa alma e labirinto. Nem tinha me dado conta que elas existiam, e então já as conheço.
Hoje me perguntaram porque não sou mais o mesmo desde... bem, não importa. Eu estava usando isso como um nick, na net... Não pensei e já respondi como se fosse um texto decorado, batido demais em ensaios. Veio cristalino e simples. Falei: foi quando conheci o amor! Não o amor dos outros por mim, mas o meu por alguém. Foi quando realmente descobri o que é querer o bem de alguém.
Isso faz muita diferença porque por intermédio de uma pessoa você descobre todas as outras. Coisas que antes eram indispensáveis vc joga fora. E o que parecia inalcançável subitamente está ao seu lado. Mais... está dentro do seu coração ou alma ou o que você considere o melhor de você mesmo.
Ao meu amor, todo o meu amor. Distância, silêncio, tempo. Nada muda o que me deu.
Não bastasse tudo isso... ainda sinto sua respiração quando nos beijamos. E seus olhos brilhantes quando me via.
Numa casa nova de uma vida nova o passado invade o ar como o cheiro da arruda lá no jardim.
Desencaixotei os copos. Comprei vinho. Arranjei flores.
E coloquei cortinas brancas nas janelas.
Estamos ainda respirando o outono!
Semicerro os olhos...
Vem.