domingo, outubro 04, 2015

Aí, um mestre na arte de amar vira e diz... não ame quem não merece. Ninguém merece. Por isso o amor é surpreendente. Ele não se encaixa na nossa vida e ela tem que se expandir.
só tem uma coisa pior que te conquistarem impiedosamente...
é decidirem fazer isso todo dia, de novo, sem parar...
sou uma pessoa comum que viu coisas e teve experiências incomuns. às vezes nem sei o que fazer com elas. preferia ir dormir sossegado. mas minha memória, único dom que realmente tenho, não me perdoa...
tudo continua vivo pra mim, décadas depois. meu pai cheirando a serragem, minha mãe e seu casaco de linha vermelho, as mãos da minha avó ainda com folhas de manjericão presas nelas, as margaridas que eu plantava em maio, o papel novo dos livros, a voz da vizinha de seis anos cantando e a chuva molhada na camiseta aos 5 anos.
e as pessoas todas. as boas, as más, as que eu nem devia ter prestado atenção. os sorrisos de amor, os olhares de desprezo, as decepções sem fundo e seus olhos translúcidos no poente.
a vida cansa quando ela acorda todo dia inteira com você...
fez trinta anos que minha avó morreu e as vezes ela ainda senta do meu lado olhando para o jardim, em silêncio.
mas a verdade é que se me dessem a chance de esquecer tudo eu recusaria...
meus amigos, alguns que amo tanto que não se pode explicar:
"amem a toa"
amores plutônicos.. é tudo que consigo criar...
Eu gostaria muitas vezes de crer cegamente...
Mas aí vem meu olfato e me enche de pistas...
Fiquei lendo textos do meu fotolog... coisa velha..
Nossa, como eu era legal... auhauhuhaauh...
Às vezes, as melhores pessoas com as melhores intenções são as mais chatas. Isso não é uma desculpa para sermos rudes e varrermos essas pessoas para o acostamento, pelo contrário. É sempre bom lembrar que algumas das pessoas mais agradáveis são pulhas e ninguém é mais agradável que um bom pilantra. Separe bem o prazer da fricção social (você entendeu a metáfora), do prazer de ter gente em quem você confia. Boas pessoas não são uma commodity. Como o ar, nem custa nada ainda... mas tente passar sem elas.

02 DE JULHO DE 2012

É tão legal saber que vc passou um fim de semana com todos seus amigos legais, ateus ou não. Fico feliz de saber que vc teve momentos de alegria ao se sentir com Deus, seja numa igreja ou numa cachoeira. Me sinto melhor como pessoa por saber que vc recolheu, cuidou e deu destino gentil aos cães de rua que encontrou na vida. Também me sinto com ânimo pra vida ao saber que vc adotou crianças abandonadas pela vida ou família e fez isso mesmo sabendo de todos os limites que a atenção que elas precisam vão tirar da atenção à sua tese de doutorado, sua carreira, suas viagens a Europa e quinquilharias eletrônicas...fico até com alguma inveja por tanta disposição.
Mas não acho nada legal ler 10 posts por dia dizendo que por eu não ser ateu e não ir a churrascos sou idiota. Nem acho legal ler dezenas de frases sem valor estético ou mesmo místico citando Deus de forma melosa como se a vida não fosse uma colmeia cheia de ferrões. Ou ver cachorrinhos abraçados com gatinhos como se não soubéssemos que apenas nossos cães e os de rua, criados por todos, mordem pouco. Quantos às crianças aguento tudo se vc parar de falar como é capaz de amar estranhosss...
Em resumo, postem, por favor, coisas que sejam legais... para os outros também!!! Chega de soluços existenciais.
E se não sabe ou não quer me proteger disso, me delete. Entenda, deletar não me mata fulminantemente.
Beijos a todos (sei q tem gente que odeia beijos, perdão). Boa semana. Sim, entrei no meu inferno astral e estou o capeta.
Coisas. coisas. coisas. tudo nos define.
Mentira, as coisas não nos definem, elas nos limitam. o carro, a roupa, o livro que carregamos com o título virado pra quem vem em nossa direção. Somos mais que as coisas que produzimos.
Se todos jogam, o jogo se torna um meio.
Se todos brigam, a briga se torna um meio.
Se todos agridem, a agressão se torna um meio.
Se todos trucam seu discurso, o truque se torna um meio.
Mudar o mundo pode virar uma encenação se você ainda usa os meios de sempre... 
O que você conseguiu mudar em você mesmo antes de ir mudar o mundo?
Não queria muito. Alguma alegria. Nada de amor e dor. Pomar, cantar...
.
Mas você e a vida nunca ligaram para as minhas vontades. 
Hoje de manhã, olhando pela janela, pensei... "de onde veio esse espinheiral sem fim?"
Lavar louça tem uma coisa interessante. Você tem que usar muita energia e ao mesmo tempo muito controle. É ideal pra quando você tá com raiva. Você descarrega a raiva e ao mesmo tempo tem que se acalmar pra não quebrar tudo (e com algum prazer).
Então vou lavar um pouco de louça. Talvez até a pele soltar dos dedos.
Até logo.
Um dia meio perdido.
Sensações dormentes.
Idéias sem pé nem cabeça.
Corpo cansado.
Mente inerte.
Sono, sonolência e o dormir.
E a falta assassina de quem nunca tive.
Se não for gripe... to fudido.
ah, as pessoas que não tem coração... só bico de chuteira.
amar e respirar parecem coisas fáceis de fazer.
aí você pega um resfriado, 
não dorme, 
não come, 
não descansa, 
não pensa com clareza 
e quer chamego.
...
e nada de alguém aparecer nem que seja pra fazer um chá de erva cidreira...
http://www.boston.com/bigpicture/2010/08/russia_in_color_a_century_ago.html
Putz, Arqueiro Verde, pegou no meio do peito...
Bem, amigos, tá chegando a hora de tudo voltar a normal. 
Tem o lado bom e tem o lado B, que muitos acham ser o melhor.
Mas o bom é que já começa com dois lados.
.
(90% de 50% do planejado foi realizado com 100% de sucesso.
O resto é silêncio, por hoje...
Agradeço aos amigos Gabriel PerazzoRaoni Nicolai e a Yasmim Raposo,Lúcia Raposo e Carmelinda de Lima pela ajuda recebida.)

sábado, outubro 03, 2015

Olho para dentro e vejo:
tudo se esvaziou como um salão de aluguel no dia seguinte a última festa
portas abertas,
assoalho cheirando a lavanda,
janelas seguindo a brisa...
nenhum sinal do que viveu ali ontem
então venha, como se tudo fosse novo
e habite comigo
e fique ao meu lado enquanto o vento move as cortinas,
folhas das árvores lá fora
e o silêncio como um navio a velas
o mesmo vento que nos enche os pulmões e nos leva adiante
confie: não vou soltar sua mão
eu nasci com saudades. então mesmo quando nós nos encontramos ela não passa. você apenas aguça essa saudade como o açúcar reforça o sabor e o cheiro das frutas ácidas.
vidas passadas ou vida por viver? se eu tivesse ainda quatro anos eu saberia responder. aos quatro anos eu cavalgava meus elefantes antes mesmo de saber que eles existiam. 
agora é como ser um vampiro vendo o por do sol num filme...
o preconceito é filho do medo. e o medo da ignorância, inclusive da auto-ignorância. 
do que você tem medo? o que você ignora, inclusive sobre você mesmo? isso lhe dá medo? e vai continuar assim? morrendo de medo até morrer?
valorizo a sabedoria. mas não tanto os sábios. 
homem algum saberá tudo. aliás a maioria nasce, vive e morre sem saber nada. nem mesmo olhar pra outro homem e se reconhecer...
valorizo mais os que depois de estudarem a vida toda sabem que ainda não sabem nada...
como ouvi de uma professora, ela mesma professora de professores... um dia o sol vai apagar, as estrelas vão apagar. é tudo vaidade...
Às vezes a gente só lembra das experiências ruins... cuidado.
Nunca, nunca, nunca diga a um filho, sobrinho, coleguinha deles, aluno, ex aluno, a ninguém que algo é impossível e ele não conseguirá fazê-lo. Ele pode acreditar e você será responsável pelo universo perder uma de suas frações ideais...
Não importa o quanto você ache difícil, perigoso, arriscado, trabalhoso e demorado... nunca diga que nunca será possível. A maior parte do tempo a gente acredita nas coisas, mais do que sabe. Não estrague tudo porque você tem medo. Tome coragem e vá junto.
Ninguém é perfeito,
O amor é que é um grande air-bag.

sexta-feira, outubro 02, 2015

Uma vez, chegando do hospital, após uma queda feia, sentindo dores pelo corpo todo, ri de mim mesmo gemendo tanto a cada vez que respirava.
Minha sobrinha mais nova, bem nova então, talvez achando estranho eu rir na situação, me disse:
Ai, tio... O senhor não se cansa de ser feliz?
Não... Aliás, pode por na minha sepultura: "Agora se cansou de ser feliz! ".
Bom, eu tento. E não espero um dia... É hoje, hoje. Tento ser feliz quando como o morango, quando o planto, quando mato as pragas e até quando tudo morre e mudo pra violetas.
Só hoje é a hora de ser feliz.
quando eu nasci dizem que eu não chorei.
deram palmadas, colocaram numa pedra fria, faltaram me estapear até eu chorar.
acho que era recusa. sair de minha mãe que é uma boa pessoa e vir pra esse manicômio. 
finalmente, por inútil que fosse, gritei: me tirem daqui.
acusar alguém por seus defeitos é fácil. 
todos temos defeitos. 
ninguém escapa.
.
já "acusar" alguém por suas qualidades fica mais difícil porque precisamos primeiro reconhecer qualidades que talvez não tenhamos agora e nem nunca.
.
nossos defeitos nos sufocam como abraços apertados da tia doida, mas familiar.
já nossas qualidades muitas vezes nos assaltam de supresa e nos fazem salvar crianças de serem esmagadas por bondes. e que catzo fazemos com isso quando temos que gastar nossas noites dissecando o passado de Capitu?
sobreviverei.
como as praias que todas as noites são desmanchadas pelas marés,
mas todas as manhãs existem já não existindo mais como eram antes.
continuar na mudança
mudando sempre para não findar
como um caleidoscópio feito na escola
como o cosmos feito no éter.
uma praia nova na manhã fria.
Amo sua delicadeza extrema que você esconde cobrindo com canela em pó.
Seu caminho no mundo, como sementes de dente-de-leão ao vento.
Amo sua estudada delicadeza ao andar que serve apenas para esconder sua verdadeira delicadeza ao ser.
Sua delicadeza que não pode ser oculta, delicada e infinda como um gigantesco campo de girassóis que ultrapassa o horizonte e se move ao vento quase em silêncio.
Amo a força da natureza que se mostra em você sem se mostrar. Seu silêncio estremece meu coração e ele bate sem pressa, sem querer lhe deixar.
.
Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo.
Também sou escritura
e nesse mesmo instante
alguém me soletra.

 (Octávio Paz)

quinta-feira, outubro 01, 2015

alguma humildade, por favor, pra lubrificar o mecanismo sem fim da vida.
o dia acabou sem ser cumprido. mas essa é a vida, incompleta. tudo fica por fazer todo dia. tentemos dormir e esperar a nova luz. outro dia vem. e esse seu sorriso estranho que não mostra os dentes, mas brilha os olhos e os umedece, como um riacho colorido pela sombra da mata. mesmo agora na noite escura eu o adivinho no fundo do vale, murmurando. e eu durmo sorrindo cansado, sem mostrar os dentes. só uns nacos da minha alma.
a juventude é quando sonhamos com o que nunca vimos. depois... tudo vira um grande patchwork do que sobrou. com alguma sorte pode servir de cobertor e esquentar as noites vazias e frias... e quem sabe fazer a criatura sonhar ainda com o que viu antes de dormir...

quarta-feira, setembro 30, 2015

31 de julho...

Daqui a pouco, tudo volta ao normal. Menos o que é naturalmente anormal...
a vida é simples como uma pedra polida... um elefante no banho... uma baleia parindo... eu tentando entender os sinais do corpo...
One Art The art of losing isn't hard to master; so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster, Lose something every day. Accept the fluster of lost door keys, the hour badly spent. The art of losing isn't hard to master. Then practice losing farther, losing faster: places, and names, and where it was you meant to travel. None of these will bring disaster. I lost my mother's watch. And look! my last, or next-to-last, of three beloved houses went. The art of losing isn't hard to master. I lost two cities, lovely ones. And, vaster, some realms I owned, two rivers, a continent. I miss them, but it wasn't a disaster. -- Even losing you (the joking voice, a gesture I love) I shan't have lied. It's evident the art of losing's not too hard to master though it may look like (Write it!) a disaster. Elizabeth Bishop
Acabaram os dias de sapo e mesmice.... Você é minha festa de Babette no céu.
vou deixar esse mundo falso, digital. fake bug... volto ao mundo dito normal. onde farei de verdade coisas falsas de papel crepom. minha sina (terei tanta sorte) é fazer coisas dúbias e esperar que teu coração entenda.
Dizem que uma forma de alcançar o equilíbrio é se esvaziar de si mesmo. Às vezes eu consigo, mas, sei lá se sorte ou azar, segundos depois, como uma onda verde, você invade todo esse vazio e um mar se instala ali.
Quando eu votei a primeira vez, era a primeira vez de uma geração toda, eu votei no Montoro. Tenho orgulho de dizer isso porque fui funcionário público no fim gestão Maluf e começo da gestão Montoro. Não me venham com lenga lenga de que é possível mudar o mundo. Eu vi e só foi preciso fazer o que se acreditava. Não nos últimos dias de campanha, mas nos últimos 15 anos de ditadura. É fácil colocar a culpa nos políticos, porque é mais difícil agir como adultos, homens e mulheres que tem idéias o dia todo, não na hora de sentar a bunda numa cadeira macia e entrar no facebook. Você tem idéias qdo cruza a rua e espera o semáforo abrir, qdo deixa claro que viu o idiota tão cheio de razões estacionar sobre a passagem de deficientes, sentar em bancos preferências no ônibus ou metrô com grávidas bem a sua frente, qdo não empurra ninguém na boca da escada rolante e fica do lado direito para quem quiser descer poder descer porque não julgo a pressa de ninguém, só seus maus modos. Voltando aos meus tempos de funcionário vi, não em semanas, mas dias, práticas ancestrais de ganhar um extra serem suprimidas porque se o chefão lá em cima não admite. Pena que desde então, candidatos dos outros ou meus não tenham tido a mesma firmeza de caráter. Só não me deprimi com o Lula falando que o PT só fez o que outros partidos fizeram pq já tinha me deprimido com FHC fazendo a mesma coisa. Ou melhor dizendo, a fazendo originalmente na "Nova Rapública"... Ressalvando que o PT não fez igual, fez menos, segundo levantamentos dos partidos mais sujos no país. A honestidade e moralidade parece ser uma carga extra que poucos políticos, de qualquer cor, suportam levar ou escolhem carregar. Dito isso, votei e votarei de novo no partido que cria policlinicas em Santos, encabeça a luta contra preconceitos na luta contra a aids e a homofobia, cria ceus que dão emprego a classe artística, cultura a pobre, educação a crianças. Cria um bilhete único que humilhou todas as obras de engenharia estilo maluquistas anteriores. Pelo menos eu que ando de ônibus e não bike, parei de sofrer na tentativa de colocar uma orca numa lata de sardinha. Mas isso não quer dizer nada na cidade mais desmemoriada do país. Devem por soma na água.
Foi tudo tão rápido que não percebi bem. Foi como um copo de vinho tinto que entornasse e perdesse assim o sentido de ser um copo de vinho, sem o vinho. Meio tonto lembro no Ric Peruchi que levantou a taça meio cheia, meio vazia; na minha irmã subindo e descendo a Serra todo dia, fazendo mais perguntas a volta que todos os seus alunos juntos. Pensei no meu pai e mãe nervosos la longe na praia, desatentos do mar, do céu e do sol e pensei no que eles passariam se o pior se passasse. Pedi que dessem um recado, avisassem alguém, depois esperei em silêncio até não lembrar mais. As coisas nunca ditas, que grande perda. E foi no que pensei, vazio como um copo que emborcou. Um ano depois que o tempo passou a se arrastar, às vezes eu finjo que corro, pra sentir que tenho uma vida. E tenho. . O passado é um país estrangeiro, mesmo ontem já se fez enigma. O dia vaza pelas cortinas. Colhamos o dia. . "O passado é um país estrangeiro: as coisas são feitas de modo diferente lá." L. P. Hartley . "Um dos problemas dos nossos dias é a enorme usura do passado como memória, como experiência outra. Não sei se aprendemos muito com o passado e também duvido que ele tenha qualquer “lição” para nos dar, mas conhecê-lo torna o presente mais interessante, mais complexo e menos presunçoso nas ilusões de que se faz a “actualidade”." Pacheco Pereira . "Toda vida se tece de mil mortes!" Guilherme De Almeida Inclusive das nossas mesmas... .

a sério...

Ahhh, senhor meu Deus... Meia hora me levando a sério...
Então eu paro e olho pra trás
Rio sem parar.
Gargalho.
Engasgo.
Deus me fez louco
Deus me fez artista
Deus me fez manco
Sou sempre o último, o último da lista
Só me sobrou esse papel
O de palhaço de Deus.
Mais um bobo, um arlequim de baile
Um clown, um clóvis, um augusto.
Sem saber o que fazem, sem saber o que dizem:
Palhaços do Deus de amor...
.
(pronto...começou, mais meia hora me levando a sério...)
Tá todo mundo repetindo esse video do Morgan Freeman sobre racismo. Tenho a impressão que a tradução é bem imprecisa, mas o que me interessa eh dizer que a forma como o racismo se manifesta aqui e lá é diversa. Mesmo dentro do Brasil é diversa. Eu pessoalmente (por minha própria experiência) nunca vi ou soube, dentro do meu circulo familiar e de amigos, de demonstrações humilhantes e flagrantes de segregação, ou mesmo versões subliminares. O que não me faz duvidar de quem as conheça o conte. Mas me parece (estou escrevendo sem consultar nenhum autor, livro ou opinião alheia) que o racismo nos EUA se manifestou de forma extremamente publica e mesmo oficial. A isso se contrapôs nos anos 60 a luta pelos direitos civis, veja bem, direitos civis. Não se pede que alguém mude de opinião, apenas obedeça a logica dos direitos iguais pra seres humanos iguais. Isso cria uma tensão constante que justifica a fala do ator. Tipo, se as pessoas pararem de falar tanto e demonstrar que estão com raiva umas das outras talvez passem a fazer coisas mais uteis e sentissem menos raiva. Não sei se concordo, mas ele parece de saco cheio de tanto enfrentamento e bateção na mesma tecla. Mas nós temos o problema inverso. Mesmo nossos escravos tinham direitos civis. Eram mais protegidos, de fato inclusive, pelas leis que muito operário ou lady ingleses. Nosso problema é o não dito, o não assumido. Entendo que as pessoas tenham pudor de assumir publicamente que sejam estupidamente racistas, mas acho útil que todos, negros, mestiços e brancos, falem a respeito de suas percepções do problema. É preciso pensar, ser consciente do que faz, da sua historia, nem que seja pra discordar dos outros, das versões, dos brancos vilões, dos negros vítimas, das pessoas reais. Tivemos quase 480 de escravidão legal, algum efeito isso tem, mas acho que se formos falar a respeito, acharemos todo tipo de visão, versão, opinião. Só a discussão faz a gente perceber a diferença entre fatos, documentados, mitos e mentiras... e o porque de um ou outro ficar em evidência e passar por verdade única. Nós brasileiros, ao contrário dos americanos, precisamos muito falar sobre esse assunto.
não entendo porque as pessoas lutam tanto pelo direito de serem estereótipos. ninguém mais quer mudar o mundo pra melhor, rompendo com modos, tradições a papéis antiquados de um mundo antiquado e inadequado. as pessoas querem apenas um assento de cor diferente reservado pra elas.
contradição ambulante, muitas vezes desprezo gente que despreza gente.
momento detesto isso... . detesto nutella, onion rings pra mim é cebola a milanesa, gatos me irritam e só vou ter cachorro o dia em que tiver um quintal pra ele correr livre e longe da minha sala. não sou fofo, meu corpo apenas mantém suas formas de gordo ainda. adoro comer carne e odeio coisas de soja. parando, devagar, com o leite porque não se acha mais esse produto pra vender. tenho um bom telefone celular, chamam de outra coisa, e ainda não aprendi a usar todas suas possibilidades. mas vou apagar todos os apps pra ver filme, ouvir música, desenhar porquinhos, jogar pedra em passarinhos bravos, tudo. tenho celular pra sair a rua e quando saio a rua vou a rua, quero achar mapas, ruas, taxis, uber (acho que falar mal desse serviço é como criticar as boleiras de bairro. dane-se o amor em pedaços caros), nada de de programinha de cinema, music hall, stand up, videos pornô, programa de caça ao sexo. 90% dessas tranqueiras eu acho um lixo. ruim e sem sentido mesmo. gosto do cheiro da comida do macdonaldiis (e todas as redes com nomes anglo-americanos), as vezes gosto de comer, mas não como porque se é pra morrer aos poucos me envenenando, vou provar absinto e outras coisas. modo de falar, não vou provar nada. meu hamburguer é melhor que essas criações. e pelo menos sei o que vai neles. sou diabético mas odeio comida diet. só odeio mais, muito mais, os efeitos do envenenamento por açúcar. aliás, a única droga realmente boa. mata e você ainda quer um docinho na hora de passar... falei que sou chato, né? muito. até quem me ama me bloqueia no whatsapp. sei disso porque depois me contam só pra me irritar o que não é difícil. se eu não fosse tão legal ao vivo podia me considerar um náufrago de cartoon. não, não arrogante. sou até inseguro. você pode me elogiar várias vezes na mesma noite que eu não me incomodo. tenho uma certa humildade... genérica. por falar nisso... gostaria que meus colegas de teatro fossem mais humildes. assim poderia ir ver mais trabalhos se pudesse falar francamente sem ser visto como uma anomalia, um bárbaro, um invejoso e todas essas coisas q falamos de quem nos critica. escroto já é muito pessoal, aí é vandalismo... estou desempregado. desde 2005 quando entrei na faculdade. agora que passei a pessoa jurídica parece que piorou. mas não... sou ator, "mexo com teatro". ou seja, sou um desempregado crônico. quase fiquei aleijado, quase morri, quase casei, quase fiz sucesso. a vida é perigosa. mas tenho sobrevivido. sou exagerado. metade do que falei aqui é verdade. metade eu dei uma suavizada porque não quero ver ninguém decepcionado. me apaixono sempre. é como uma camada nova de tinta brilhante na vida. depois vai esmaecendo, a gente vê as camadas de outras pinturas velhas. sim, uma vez apaixonado por você, isso nunca mais acaba. fica parecendo um móvel feito de madeira de demolição na revista claudia. bem que podiam dar uma lixada, mas mais importante é parecer de demolição que ser bem feito. todo caso, amo amar e principalmente quem merece. as pessoas precisam ser boas, mais que serem simpáticas ou populares. todo caso... eu te amo... mas para de dizer que tô gordo que tô cem quilos mais magro. e os últimos dez foram só por você.
Não existe paz possível no abandono ou perda, apenas no reencontro com o você que havia antes. Quando estamos sós não existe nada que possa ser realmente perdido. Tudo que somos ou fomos está em nós. Mesmo um amor que se foi é como uma mão marcada pra sempre no cimento da calçada.

11 de setembro, 2015

Felicidade é estar vivo e em boa companhia.

A verdade no sinal verde...

Delfim, nosso Jaba-the-Hut, disse que a Dilma é honesta, mas atrapalhada. Eu digo que ele tangenciou a verdade: ela atrapalha porque é honesta. Como conviver com uma presidenta assim? Como levar a vida? Um povo que não consegue esperar o sinal verde não suporta essa mulher.

O tempo passa, a vontade não

Eu precisava me empaturrar de açúcar, encher a cara e pegar um avião. Não dá. Pouca insulina, muita sensibilidade no trato digestivo e nenhum dinheiro. A sukita virou cicuta.

24 de setembro

Na verdade eu só tenho um temor, que é fatalista, irreversível: que quando um rio tem que correr, ele corre. Podemos nos afastar da margem, podemos reforçar pontes, podemos deslocar populações, mas não adianta erguer barreiras, açudes, represas. Se ele tiver que correr, correrá. E, plagiando Brecht, se as margens o apertam, mais ele tenta se expandir. Esse país precisa mudar e agora que está mudando muitos se amedrontam e fazem de conta que não sabem de nada. Não adianta. Antes deixassem o rio correr, ele não derrubaria casas tanto tempo construídas. Uma pena, meu medo, mas muita parede vai cair.

Família, família....

Pra ter família é preciso amar, não ejacular ou ovular. Esse arcaísmo de patriarcado onde basta ter um pinto pra ser líder, ou ter uma vagina para poder ser dominada. Na vida real gays, que você considera anormais, são capazes de criar crianças com mais amor e dignidade que muito macho alfa. E muito macho alfa descobre que pode ser mais delicado ao criar uma criança que muita fêmea. E muita fêmea descobre ser mais macho na hora de proteger sua cria, sendo fêmea, macho e soldado diante das periferias violentas. O estranho pode salvar uma criança de morrer a míngua e crianças carregam famílias nas costas. Não somos uma forma única, útil aos medrosos de um mundo novo onde o amor e não o poder une pessoas... Ou as liberta. Chega de ter medo. Um mundo sem porteiras pode assustar, mas não somos gado, nem ovelhas. Chega de tanto pastor.

terça-feira, janeiro 21, 2014

Sonho e a volta pra casa

Tenho um sonho recorrente faz no mínimo uns 30 anos. Talvez já o tivesse antes, noutro formato.

Estou na periferia de uma grande cidade tentando pegar um ônibus para ir para casa. às vezes sonho que vou por ruas íngremes e estreitas, noutras vezes por grandes avenidas que se cruzam, planas, vazias. Uma vez tantas camadas de avenidas, metrôs e trens que parecia uma Metropolis empoeirada. Às vezes vou por lugares sujos e poluídos, ora arejados e assépticos. Algumas vezes assustadores, mas sempre desconhecidos.
Nos sonhos eu preciso confiar que o motorista ou cobrador entenderam onde quero ir, porque há tantas linhas e direções possíveis. Isso quando entro finalmente num ônibus, às vezes nem chego nesse ponto e acordo já desistindo de ir até o fim.
Na última vez estava apenas bodeado e cansado. Por ser recorrente, o sonho já não me assusta, apenas me estressa ter que correr contra o tempo porque ou está escurecendo ou tenho um compromisso. Nunca chego em casa: não sei onde é isso. Todo caso, agora, é um estresse contingencial, não fico mais ansioso, apesar de sempre estar sozinho.
É um tanto óbvio: minha vida parece boa, apenas o momento é confuso e pede calma, logo estarei bem.
Ou nem tão óbvio: nunca voltarei pra casa... seja o que for que casa signifique.

sexta-feira, setembro 27, 2013

Longe...


Solto de Krypton,
Sol amarelo no céu,
Seu olhar verde.

Um Hai-Kai sem dono...

O lago no outono
Salta a rã
Desaba o céu!

No acostamento do caminho de Santiago


perplexo
ex convexo
hoje
tudo me diz nada
nada será tudo
hoje
côncava espera
...estrelas
...sol
...planetas
cometas incertos
...
...
chuva?
talvez?
talvez... recôncavo.
...
meu coração como mãos em concha espera.

sábado, setembro 21, 2013

novas memórias velhas

novas memórias velhas


os corpos amontados envoltos em ferros ainda estão úmidos de sangue.
como ilhas em mar vermelho, pedaços de homens flutuam. o sangue empoçado começará logo a se coagular e tudo se unirá ao chão do deserto.
então alguns corpos se movem e tombam para os lados, pesados, mais pesados do que em vida carregavam suas armaduras. e o guerreiro se levanta de entre eles como uma baleia salta para fora do mar, sua boca procurando ar. e cospe muito sangue. o seu e os dos mortos sobre ele.
no desespero de se livrar de tudo não sente seu próprio sangue vazar por um grande buraco no seu flanco.
tenta livrar seus pés e tropeça em corpos. cai e vê de perto olhos arregalados que parecem gritar para ele. o brusco movimento para longe o leva a olhar o céu. o céu muito azul e ele não olhava o céu já fazia muito tempo.
muito ao longe ouve algum gemido. e o vento. o vento frio fazendo o rio de sangue por onde andava entre os corpos começar a gelar e secar. algo fazia sombra e deixa o sol brilhar muito ao longe. sentiu que ia morrer em instantes. como uma sentença: viveu apenas para ver tudo aquilo. 

som de cascos de cavalo distantes. cavalos relincham. vozes gritam. os cascos batem ora secos, ora encharcados de sangue, ora surdos sobre o oco de corpos. o cavalo se aproxima às suas costas e ele sabe que não tem mais tempo. ele já teve tempo para ver tudo aquilo que produziu. é hora de acabar. ajeita sua coroa, se ergue apesar da dor e respira pela última vez.


sábado, novembro 10, 2012

super prise surprise

A vida é cheia de surpresas. Boas, ruins e as divinas.
Depois tudo volta ao normal.
O coração bate de novo do mesmo jeito, e até esquecemos que nos surpreendemos antes. 
Já não rimos tontamente ou falamos tolices pra esticar um pouco mais a conversa.
Mas você... não sei se foi uma boa, ruim ou divina surpresa porque até agora o maldito coração não voltou mais a bater direito.
Temo que com tão prolongada falta de equilíbrio já não bato bem da cabeça também.
Fico aqui, ora rindo, ora falando tolices.
E o coração batendo fora do tempo.

domingo, outubro 28, 2012

Cai, cai, silêncio... devagar...

Hoje tomei uma chuvarada vindo da votação na Vila Madalena. 
Preciso mudar meu titulo pra Jardim São Paulo. 
Não deu tempo, né gente???
Seria uma chuvarada pra me resfriar, mas sei lá... cheguei a achar divertido. 

Lembrei do tempo em que eu vinha pra casa brincando com meu guarda-chuva e chegava encharcado e levando bronca.
Que chuva boa no caminho pra minha casa... 

Minha casa que hoje finalmente senti como minha casa. 
As ruas do Jardim São Paulo finalmente são minhas também.
Acho que estou feliz. 
Isso não é pouca coisa pra ajudar no sistema imunológico de um homem.
Estou feliz.
Tá bom.

Sim tá bom demais.
A chuva ainda cai. Alguns trovões. Mais chuva.
Boa noite pra dormir.

Boa noite, quem me faz feliz...

terça-feira, outubro 16, 2012

Penélope Velha, durma bem



Não quero esperar você
Tecendo fantasias e medos.
Vivendo no ar, suspense,
Ignorando seus passos...

Não quero passar noites vazias
Criando tramas de fios soltos
Gozando com as cores da seda
pra nova roupa do rei.

Quero estar com você
Mesmo que separados por hemisférios
Andando no meu chão sem pressa
Conhecendo seu caminho

Suas noites de alegria e festa
Um urdimento sem fim
Guardando todas as histórias
Que você agora guarda pra mim.


quarta-feira, outubro 10, 2012

Menino, menino, menino!


Não é agradável ouvir certas coisas de moleques remelentos, mas eu nunca tive problemas com idade. Nem tenho mais deferência ou desprezo por uma ou outra faixa etária.
Mas pra eu não racionalizar, bicho, é uma luta minuto a minuto contra 47 anos de especialização. O que nos salva num momento, nos afoga no outro. Principalmente armaduras muito pesadas.
Ficar nu diante dos fatos é poético e poesia demanda alguma loucura e método, talvez dissesse Polônio.
Nesses olhos perigosos sem ressaca, nadar, afogar ou mergulhar é a mesma coisa. É preciso morrer para poder nascer e aprendi uma coisa ou outra sobre esse processo ultimamente.
Aprendi a amarrar o cadarço para a caminhada, mas foi só primeiro passo.

segunda-feira, outubro 08, 2012

O destino de um só

O gosto de ferrugem
A espada sem corte ainda fere
Seu gosto na língua,
Matando aos poucos
Tetânica

Esse sangue que me alimenta
que me alimenta a morte
que me alimenta o medo
que me alimenta o desejo de um fim

O jorro da vida amamentando a morte
Sinto o rio se espalhar por mim
desde a infância, o calor sol vermelho
pulsando, latejando, irradiando.


sábado, outubro 06, 2012

Adeus

Chegando a hora de dizer adeus para sempre...
É uma dura hora, um funeral de vivos.

E eu que, amei tanto esse viver, não consigo dizer adeus.

um pouco de vida já é vida

Eu preciso de sua coragem.
A minha falha, miseravelmente.
Toda força que me sobra:
Apenas para chegar até você.

Por favor não tenha medo
Por favor venha na minha direção
Preciso viver.

terça-feira, outubro 02, 2012

O deserto é onde você não está...


Quando conheci você
Eu achei... eu desejei... eu quis muito que ficássemos juntos
E achei-desejei-quismuito que fossemos juntos, caminhássemos lado a lado.
Bastava isso, seu passo ao lado do meu.
Seu sorriso de lanterna e trilha sonora.
Um amor que nem se sabia amor, simples e alegre.
Eu queria tudo de você e não queria nada exatamente.

Agora, percebo,
Não tao alegremente, mas feliz,
Que você se infiltrou na minha vida de forma incontornável.
Talvez de propósito, talvez como a areia que entra pelas frestas da veneziana fechada....
Estou pleno de você e nem me importo se não há mais lugar para mais nada.

quinta-feira, setembro 20, 2012

Plagiando

la plage
sur la plage
le soleil dans le ciel, les vagues à mes pieds

vos yeux verts
le monde porte verte comme un jardin
.
e se antes esse eu não existia era porque seus olhos ainda não me viam...

domingo, setembro 16, 2012

Calor

eu amo você
amei desde o primeiro momento que vi você
e cada vez que você sorri eu sei que entendi certo:
você disse venha e eu fui.

"fica comigo esta vida
e não te arrependerás
la fora o frio é um açoite
comigo calor tu teras...."

terça-feira, julho 03, 2012

Os seus olhos que não me veem.

Vir aqui escrever
Para que?
Você não lê.
Inútil tecer.

Nosso amor,
Um espelho numa sala vazia.
Nada. Ninguém.
Nem a dor.


domingo, junho 10, 2012

Para que servem as mãos?




olho minhas mãos e não são minhas
aperto uma mão contra outra como se rezasse
apenas sinto a textura da pele
pressinto o peso sem peso de meus ossos
não são minhas
tão magras que ainda não as conheço
são mais as mãos de quem eu amo
tão minhas e tão alheias
só minhas quando me tocam os ombros

mas minhas mãos não são minhas
meu corpo não é meu
leio um livro
olho um texto escrito em papel de caderno faz 20 anos
abro um arquivo de texto de 2009
não sou mais eu
olho para minhas mãos
ainda não sou eu
não reconheço esse corpo quando me deito
não me reconheço
eu sou outro
não sei ainda quem e hoje não estou muito interessado
fico quieto
tudo se esvazia e me deixa
no silêncio de minha presença apenas você se move
mas não sei também se você é você ainda
se ainda me ama
se ainda sorri quando me vê
se ainda se arrisca a me amar
mas no silêncio de minha presença ao menos você se move
e se arrisca
e sorri
e me ama
não sei muito mais que isso agora
não sei
se alguma coisa das novas coisas vale a pena afinal
mas para suportar tanta solidão de tudo
inclusive de mim mesmo
fico em silêncio e ouço sua respiração em silêncio ao meu lado no metrô


domingo, abril 29, 2012

Zen


meu primeiro beijo foi no outono.
o sol esquentava.
a sombra refrescava.
a luz amarelava.
o céu azulava...
e as damas da noite ainda não se faziam de gostosas.
tudo era igual ao que sempre foi,


sabe Deus de onde eu tirava a idéia de sempre
eu, nascido há menos tempo que o limoeiro no jardim...


o porão como uma caixa de mágico
a luz penetrando como espadas.


então veio o beijo:
o sol dentro da pele
a saliva fria e úmida

a pele alheia tão próxima,
alheia e sua,
minúsculos vulcões de suor.
e o céu, escuro, na boca.


e minha vida finalmente começou.
o bem, o mal, 

o desejo unindo ambos
numa bolha...

sábado, fevereiro 25, 2012

Sem verão


o verão nem acabou e já está frio...
e o frio... pede calor... de casacos, cobertores e abraços...
e abraços pedem braços amados, não quaisquer braços...
e braços amados pedem amor... que você ame...
e para você amar, algum verão, nem que seja de uma andorinha perdida, você tem que ter no coração...
e verão no coração... pede que se tenha coração...
... but my heart is frozen in a Danube bank...

domingo, janeiro 08, 2012

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Amando na chuva...


escolha bem seus amores...
escolha, também, os dias em que deve chover...
escolha, também, quando deve haver terremotos, maremotos, tornados e furacões e em que partes do globo desabitadas devem ocorrer...
escolha o que quiser do jeito que quiser. mas a vida vai lhe dar tudo como lhe aprouver... caoticamente.
assim escolhi amar você... e aceitar o caos.

domingo, dezembro 18, 2011


Entre o céu e o inferno existem abismos gloriosos e dignos do risco da queda.
Correndo riscos de ter uma perna ou o coração quebrados, mas indo colina acima pra ver o céu e ouvir um rio correr falador sob a floresta.
O rio do meu coração só diz um nome, mas pôde ouvir o mundo sussurar todos eles.


Em Rusenski Lom, 20km de Ruse, Bulgária.

domingo, agosto 21, 2011

Além do jardim



A cada passo que dou nessa terra tenho a sensação de que já estive aqui.
Pode ser apenas minha capacidade de associar lembranças e editá-las, que herdei da minha mãe, com certeza, e de meu pai, talvez...
O cheiro e som das estações de metrô em Berlim iguais aos da minha infância andando de trem no interior de São Paulo, o cheiro de capim seco em todo lugar e de bosta de ovelha na Serra da Estrela e nas estrada para Ruse, o cheiro de lavanda em algumas ruas de Seia, da florista em Budapeste e das minhas malas onde guardei um ramo. O cheiro de tempero e defumados em toda parte. Os ladrilhos nos metrôs, sobras de uma arquitetura higienista talvez... menos em Portugal onde eles são uma festa quase tropicalista depois de descobrirem o Brasil, principalmente... mas não somente. E uma eterna limpeza imperfeita e não desinfetada ou cheirando a amoníaco e pinho. Apenas limpeza .Quando cheira, tem um cheiro que eu nao sei qual é... um limão amargo, talvez. E uma surpresa infantil que demorei meses para saber o que era... o cheiro perfumado de Praga. Talvez tílias, talvez jasmin. E o cheiro de rio apenas rio e água e mato nas margens do Vltava olhando a ópera de Praga passar. Ou, melhor, estando a passar numa procissão de pedalinhos em fúria num dia de chuva, frio e de performances nas margens de uma ilha. E o rio a cheirar apenas água. Um paulistano tem vontade de chorar...
Estou a falar de cheiros e não de luz. Mas viver num eterno outono mesmo sendo verão é demais para precisar de descrições. E eu perdido com o sol na janela às nove horas da noite...
Eu digo que não me surpreendo com nada e me emociono com tudo. Ou quase isso. Quando saí do metrô e fui sugado pela praça Venceslau em Praga. Quando um bando de gaivotas cruzou o caminho do ônibus na ponte sobre o Douro no Porto. Quando me vi no ponta extrema da Torre de Belém e a terra nas águas do Tejo corria para o Atlântico. Vendo as planícies virarem montanhas de repente e de repente sumirem em nova planície depois de deixar Sófia.
Me disseram que às vezes tenho reações de zumbi às coisas que em outros provocariam arroubos e voz alta. Mas em algum lugar na minha infância aprendi a não demonstrar o que sinto. Eu sou assim por quarenta e tantos anos. Bem, dizem também que não é nada dificil perceber o que estou sentindo. Mas não é questão de demonstrar algo, mas transpirar algo. Tudo acontece por dentro como a força que faz uma bolha de sabão existir e tudo é transparente. Dependendo do ângulo, invisível. Mas só eu sei como tremi por dentro cruzando o Portão de Brandenburg junto com o sol e dezenas de bicicletas que vieram do nada. Ou ao me enrolar em cachecóis no meio da chuva gelada que caia no Memento Park, em Budapeste, no desterro de todas as estátuas comunistas da cidade. Ou lendo, ou tentando ler, os nomes de tantos meninos e meninas de dezoito, dezesseis, quinze anos mortos na lutas pela independência búlgara num parque ensolarado a beira mar. Ou achar uma ruína perdida na reconstruída (e em reconstrução) parte oriental de Berlin... a ruína da Berlin oriental sobre ruínas da Berlin imperial de Hitler. E mais tílias a cobrir tudo. E também tem tudo o que não aconteceu. O vazio que abre espaço para o novo e o vazio que apenas espera...
Em Budapeste fui descendo pelos porões do museu do castelo e fui descendo e a cada escadaria encontrava uma senhora sonolenta que, surpresa, acendia as luzes para mim. quando sai novamente para o ar livre estava quase na altura da rua ou do rio... e tinha achado no sub-solo do sub-solo uma igreja inteira escavada sob tudo aquilo. No jardim ao qual cheguei só eu e um passarinho de peito amarelo brilhante. E o silêncio. Lá no alto um garoto de 8 anos me achou e gritou rindo. Mais surpreso que ele só o garoto que conheci na queima de fogos no 14 de julho, em Paris. Depois de uma eternidade pra entrar no metrô, esperar o trem e o trem parecer ir em câmera lenta pelo subterrâneo eu me levantei para descer e ele me olhou com cara de "mas você vai embora mesmo...", tão surpreso que quase não desço. Na verdade ele não disse isso, não disse nada. Aliás, não sei como, sem falar francês ou ele inglês, conversamos por tantas horas. Era como se já conhecesse ele antes.

quinta-feira, agosto 04, 2011

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop


http://www.poemhunter.com/poem/one-art/

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Malas prontas!


às vezes na vida a gente não se move porque ninguém aparece pra ajudar com as malas e a gente pensa que ninguém aparece senão pra dar palpite, tentar nos dissuadir, fazer força contra... para carregar a bagagem, ninguém... ou quase (sejamos justos, né, Raoni?)...
então... façamos o seguinte: menos malas...
carregar apenas a si mesmo é para os corajosos... tentarei vencer o medo.
um dia direi... "Vim, Veni. E venci!"
e vamos bater asas...
opa
pernas...

terça-feira, outubro 26, 2010

o dia seguinte à festa....

Sou o que olha para dentro e vê:
tudo se esvaziou como um salão de aluguel na tarde seguinte a última festa
janelas abertas,
assoalho cheirando a lavanda,
cortinas balançando ao vento
nenhum sinal do que viveu ali até ontem...
então venha novo
e habite comigo
e fique ao meu lado enquanto o vento move as cortinas
agita as folhas das árvores lá fora
e move o silêncio como um navio a velas
deixe que o mesmo vento que enche os pulmões nos leve adiante
confie que não solto sua mão

domingo, setembro 19, 2010

Fome

O céu da tua boca é a boca do meu céu
E me perco nele como o mar se espalha na boca de uma baleia...
Míriades de águas vivas e micro estrelas do mar brilham num palato azul marinho...
Teu céu abre a boca e me engole como as baleias engolem uma multidão
Krill
Me espalho no céu como flores amarelas de ipê no vento outonal
No céu outonal...
No sol outonal...
No dourado outonal
E nos perdemos um n'outro
Cio

quinta-feira, maio 06, 2010

Céu da Boca

Palato
Palatino
Palácio de prazeres
O céu da boca sente o vento circular a ideia do doce
A boca do céu, abobadada, sente o sol escorrer
Ardendo doce como mel
A dor e o prazer: onde um se transforma em outro?
Abro a boca e sinto o vento
Cheiro de jasmim, gosto de estrelas
A boca da noite mastiga tudo sem ruído
O açúcar dissolve seu veneno em meu sangue
O amor me dissolve em você
Circulo em suas veias, você nas minhas
Veneno
Venoso
A vida oxida, nos entorpecemos
Abrimos a boca para o céu
Pedimos bis
Felizes
Primavera nos dentes
Açucarada
Sussuramos no ouvido
Papos de anjo
Nas alamedas do Consolação
"O que é para sempre não precisa ter pressa"

quarta-feira, março 17, 2010

Depois daquele beijo...


Outono. Calor no sol, frio na sombra.
Cheiro de capim la fora e maresia, cheiro de roupa velha aqui dentro e mofo.
O corpo seminú. O sorriso inteiro.
A boca, o gosto da pele.
Um tempo sem tempo para terminar.
O primeiro beijo.
Como uma onda que parasse no ar pouco antes de arrebentar, gozando o momento do seu próprio fim.
A finalidade das coisas... nós a escolhemos, sabendo ou não.
O outono de novo quarenta e cinco anos depois e o amor.

segunda-feira, março 01, 2010

Elefante



Às vezes tudo parece ser impossível.
Como querer pegar alguém nos braços sem ter braços.
Como querer sentir a respiração sem que haja ar.
Como querer pensar sem que haja razão alguma no controle.
A vida tão maior que nós. Mas, afinal, se eles cavalgam elefantes na Índia por que nós não?
Eu não sei se um dia poderei segurar sua mão. Nem sei se meus lábios ainda estarão úmidos quando tocarem os seus.
E você pergunta se é possível sermos assim. "É possível? Será que já vi você nos meus sonhos?"
Como é possível que você tenha estado sempre no fundo do meu coração ou colado no fundo do meu cérebro? Sempre lá, desde sempre, como os genes que me fizeram, tudo sendo tão grande e maior que nós?
Desde criança eu sonhava cavalgar elefantes antes mesmo de saber que existiam elefantes, como uma memória anterior aos fatos. A vida maior do que nós. Nós mesmos maiores do que podemos entender, vivendo, fingindo viver, fingindo não sentir tanta dor, fingindo sermos imunes a tudo.
Tudo tão maior e impossível, nossas verdades e mentiras, nossos segredos dentro de segredos dentro de segredos. E hoje, hoje eu vi e extensão sem fim de nós por conhecermos ainda.
Tudo maior. O vento lambendo a abóbada do céu. Mas vou cavalgar meu elefante. Certo que vou!

domingo, fevereiro 21, 2010

Absolute Zero

you are my great possibility of happyness!
so sad...
I have no possibilities, then...
but if you are happy, maybe, may be...
your smiles make me smile, too...
and I wont die today.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Reading minds...


Medium. I am not a medium. I dont read minds, honey. Even your mind that i would love if I could read it. We did not talk last night. It was a little fight. Can't I understand you? You can't understand you. How could I do? Dont be angry with people because they don't understand you!
And I woke up happy today. So depressive, a little angry, not sad. Happy: all day without thinking of you. I woke up and thought "Oh... all the day without thinking about him." Great. I had my breakfast looking at my cups. His, His. Sometimes we are ridiculous, we both. And I took a shower singing The Zephyr Song beside I never remember the lyrics. When I sent the lyrics to you I copyed from a lyrics site.
... Together... so buzy going take the bus, I almost had a crash with that blond boy who lives next street. He is taller and stronger but smokes like you. So snobish way you smoke, a little fake, charming, sexy and hot... But you are more beautifull. So stupid sometimes. Ahhhhhh... I am stupid!
And then in the subway i saw a father and a son. Fat boy, blond and slow fat young boy. Tweelve years old, maybe. He could be your brother. Same face, same nose, same eyes. Oh, same eyes...
In the subway conection I read about airlines promotions. March is a good month to visit you, people say, low prices, low season. So much work to do to have too much money. The Orient Express is so expensive. It still exists? Well, I wont pay to know.
Buzy, buzy, had to take a taxi again. Money, money... and, in the radio, I listen when he sang "Someone told me...You was crying... It was then that I realized...How much I want you ...". I almost cried. Oh, God, I am stupid sometimes.
When my dentist opened the door he started to laught. Mmmmm, I thought.... what is up, doc?
"I am not sure, but your appointment is next week, not this... but, it is good. My patient canceled his..."
Mmmm... I think, I am stupid sometimes...
I sat down, he talked about anesthesia and said:
"If all my pacients had your "feeling" (and laughs), 'Oh, I go to dentist, because the patient of 9h30 canceled ...' good feeling..."
I laught, but thought... oh, sometimes I am stupid!
"No, no, it is good, not bad, but it was a surprise. Say, me... are you a medium?"

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Mar Negro, branca neve...

. Você quer saber se a vida pode recomeçar? Se ela recomeça sempre? Se é possível corrigir erros? Mas eu acho que tudo só acontece uma vez. Mesmo querendo, mesmo tentando, não se pode "reincializar" a vida do zero.
. Você quer saber então se não acredito que a vida vai em círculos? Se... sei que você quer recomeçar mas não tem coragem de dizer. Sei que tem medo de perder o que já conseguiu. Sei que quer repetir tudo porque é o que sabe até agora. Mas se a vida anda em círculos ela anda em espiral, fazendo a mesma volta mas num outro nível, acima.
. Ou abaixo? Sim, pode ser abaixo.
. Você diz que não sabe se a vida roda em roda, se podemos passar de novo pelo mesmo lugar como a mó de um moinho, mas você não diz, mas eu sei, você gostaria de ter começado melhor comigo. Não precisava ter começado melhor. Ter começado foi o melhor que fizemos e ainda fazemos.
. Você diz que nunca foi tão bom com outro cara. E que comigo começou a pensar em coisas. Em coisas doidas e excitantes. E você muda de assunto. Começa a escolher a roupa que vai usar hoje. A música que vai dançar. Essas danças exóticas. Exóticas para não dizer eróticas e eu penso o que pode ser mais doido do que todo dia servir seu corpo como um outdoor luminoso e deixar todos os homens doidos e gritando. O que pode ser mais doido do que eu aqui amando você sem possuir nada de você além do seu sorriso que você só sorri para mim, com o rosto corado de vergonha.
. Coisas doidas como você me amar primeiro por dentro e depois por fora quando já estarei respirando rápido, com a alma querendo ser corpo só para poder ser tocada por você.
. Coisa mais doida você quer que tudo em você seja meu e de mais ninguém. Coisa doida querer parar de falar que gosta de mim para poder começar a dizer que me ama.
Seu medo de errar. Não tenha medo. Se a vida vai em espiral.
. Então posso dizer que amo você? Eu... eu amo você!
. E minha cabeça zonza roda em espiral enquanto meus lábios sorriem e ouço milhões de vezes "eu amo voce!"

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Chocolate...

Chocolate.
Chocolate.
Eu só quero chocolate.
Nem adianta vir com guaraná pra mim
...
Já viu, diabrete, que tô na deprê..
Bem, pode ser pavê. De chocolate.

domingo, novembro 22, 2009

Preguiças, onças, andorinhas.


Sombras como ventania na janela.
Riscos cortando a luz como folhas no rodamoinho.
Desabamentos de vultos do céu atrás das cortinas.
Abro as cortinas janelas meus olhos na manhã iluminada difusa de uma manhã que é tarde num dia de verão num horário de verão abafado e com cheiro de chuva vindo.
Sombras cortam o céu na janela. Riscos negros em desabamentos e espirais próximas. Andorinhas riscam o céu.
As núvens atrás das casas sobre as colinas são pesadas e frias.
O vento umido chega às minhas narinas e me diz: chuva.
Andorinhas em redomoinho parecem procurar pouso. Mas se vão.
Sinto o cheiro do ar ficar frio, do dia ficar chuvoso, do verão de temporais se instalar de vez até encharcar as noites de barulho do verão, do natal até o ano novo e depois a canseira das noites pesadas de corpos pesadamente vivos. E nem quero pensar no carnaval, ai, "que sedução!". Quero calma. Talvez sua seduçao se você jurar não cantar sambas enredos enquanto bebe minha cerveja, ri com cara de criança levada e fica comigo até o tempo ter passado suave. Suave. Suave como preciso das noites de verão. Mas serão noites pesadas com meu corpo pesadamente vivo.
Penso em você. O amor é um outono fresco, vai ver, porque estou no outono e prefiro as luzes douradas no céu azul e a brisa fria e as noites frescas entre movimentos de folhas dizendo seu nome.
Ai, mas é verão. Suportarei mais um, agradecendo apenas as noites profundamente tristes de natal com tanta gente ausente, o ano novo na cidade vazia e o calor insuportável deitado no chão de pedra olhando o céu. Talvez mais andorinhas tontas me entontecendo, como agora.
Uma andorinha não faz verão... Mas eram dezenas!

domingo, novembro 15, 2009

hi.
zemigui is my nick.
yahoo.com.br is the site.
or gmail.
write me and talk about the next championship..
the shipping...
the life...
and friendship...
so many ships going to open sea...
:º)

domingo, setembro 27, 2009

Presente prateado, Laço dourado


Ela anotava os preços dos novos cremes na agenda pequena e prateada.
Ele disse que a agenda parecia um pacote de presente de natal. Ora. Logo ele que usava aquelas gravatas que ela detestava. Ele nunca usava as gravatas que ela comprava. Ela sempre comprava gravatas baratas, mas eram bonitas. Presente de Natal...
Pela janela da loja viu as árvores balançarem, folhas serem arremeçadas contra tudo. Por que ela dispensou o carro? Por que disse para ele que não precisava que ele a buscasse? Agora o mundo ameaçava acabar e ela naquele lugar sem marquises e sem táxis. A porta se fechou atras dela quando ela finalmente pensou em pedir para vendedora chamar um carro. Ela gastava tanto ali, não seria nenhum favor especial. Mas a porta se fechou atrás dela e ela não ia voltar. Olhou o céu cinza se revirando em núvens quase roxas.
Tirou o celular da bolsa, também prateada. Ela gosta de coisas prateadas. Menos as gravatas caras dele. Caras e feias. Com cara de laço de presente de Natal. Riu de pensar isso. Presente de Natal...
O vento a supreendeu. Quase ficou cega de tanta poeira. Sentiu a porta de vidro balançar atrás dela. Mas seguiu em linha reta até o outro lado da rua. Do outro lado as árvores formavam uma marquise de galhos e ramos, tudo assobiando ruidosamente.

Ele estava no trânsito. Não tinha nada que estar ali. Tinha uma reunião as quatorze horas e agora já eram onze. Em São Paulo, ele aprendeu logo que chegou, não se pode confiar no trânsito. O trânsito sempre piora, se não para de vez, quando chove. O céu cinza onde núvens quase roxas se reviravam não deixava dúvidas. Logo tudo iria parar. O céu já ia se mover para o chão na forma de água e tudo iria parar.
Ela só sabia complicar tudo. Nunca dava atenção aos seus conselhos. Depois se metia em apuros. Dispensar o carro. Só para não se sentir presa. E agora iria ficar presa de todo jeito onde estava. Mas ela não dá o braço a torcer. Bom Deus, ela já devia estar na rua procurando um táxi, ela que tinha medo de temporais.
O semáforo avermelhou e ele parou. Percebeu sua respiração acelerada. Ele até a via na chuva, nervosa. Andando sem olhar para os lados naquele trânsito horrível de São Paulo. Tirou o celular do bolso e olhou. Estava desligado. Ele não suportava atender ligações no trânsito. Os empregados não sabiam resolver nada sozinhos.

Ela cruzou a rua, passou pelo paredão de ficus e desceu por uma escada quase escondida que levava à avenida mais abaixo, escondida pelas árvores. Tudo adivinhado por ela. Tantas vezes passou por ali. Não sabia como sabia que havia uma escada e que ia até a avenida. Acelerou o passo. O movimento das árvores se movendo sobre ela como uma mulher gigante abrindo os braços. Como a mãe vinha cobrir os filhos de noite, arrastando um grande cobertor de lã cinza. Essa agora. A mãe. Não lembrava dela desde que a tia morreu. As duas eram inseparáveis. Só tinham uma a outra. Era o suficiente. Seu coração acelerou e tremeu e ela sentiu o rosto molhado. Chuva? Elas sempre tinham uma a outra. Quando a mãe morreu ela teve medo que a tia morresse logo depois. Não morreu. Se apagou, triste. Eram inseparáveis. Uma lufada de vento interrompeu seus pensamentos, quase a derruba, e ela para alguns segundos e chora. Chora de um modo estranho e infantil. Ela era adulta, nada de choros. Sem lamentos. A mãe e a tia já tinham morrido fazia quinze anos. Ao chegar à avenida ficou com medo.
Avenida larga, duas mãos, jardim no meio, quatro pistas cada lado. Vento sibilante. Céu cinza. Núvens roxas. Pegou o celular de novo. Ele não ia atender. Nunca atende. Olhou para o outro lado. Uma garoa já parecia cair.

Ele ligou o celular. Seis ligações perdidas. Nenhuma dela. Todas da loja. Esses brasileiros. Mal largou o celular no banco e ele tocou. O semáforo abriu e ele nunca atendia celular no trânsito. Os carros diminuiram a velocidade. Adiante uma árvore tinha caído. Mas o vento estava tão forte assim? Onde foi parar o celular? Olhando pra frente, tateou. Quando achou o celular seus dedos tensos apertaram varios botões. A ligação foi atendida. Antes de encostar no ouvido já ouviu sua voz. Ela estava nervosa. Firme, seca, dizendo a rua onde estava sem nem perguntar se ele podia pegá-la. Ela sempre sabia onde ele estava.
Falou o nome da avenida. Mas o que ela estava fazendo alí? Naquele lugar sem ninguem, sem lojas, sem marquises, sem táxis. Teve de frear o carro. Tinha arrancado, avançando com o carro. A árvore estava quase a sua frente. Teve que esperar um os carros passarem pelo funil que a rua virou com aquela árvore enorme caida. Tantas árvores enormes naquelas avenidas. Ela tão pequena.

Ela cruzou o primeiro lado da avenida, o semáforo lá longe havia segurado o fluxo. Mas quando chegou ao canteiro central os carros encheram os dois lado da avenida. O capim alto do canteiro central molhava de leve as pernas da sua calça até quase o joelhos. Devia ter votado no outro candidato. Os canteiros ficavam sempre impecáveis no tempo dele. A chuva começou a cair. Leve ainda. O vento ainda forte. Cobriu sua cabeça com a agenda. Do outro lado da avenida um rapaz com um guarda-chuva enorme. Nenhuma marquise por perto. Então dois carros quase bateram ali adiante. O fluxo dos carros parou. Ela e dois meninos correram e cruzaram a rua. Os meninos de uniforme. Gritando e rindo. Ela se pegou rindo também. Já fazia tanto tempo que não corria. Nem na chuva. Nem com os filhos. Nem na praia. Não ía a praia já fazia quinze anos. Eles sempre íam a praia. Eram inseparáveis. O celular tocou. Ele não a via. Estava na avenida. Mas como não via?

Ele olhava, nervoso. A chuva apertando. Aqueles dois idiotas brigando a sua frente, depois de quase bater. Todos querendo passar para pegar suas esposas, filhas, mães, namoradas... Mas ele não a via. As pessoas se protegiam sob as àvores. Então ele viu uma agenda prateada brilhando à luz dos faróis dos carros. O dia virando noite. Era ela com a agenda. Ela cortou o cabelo. Eram longos os seus cabelos. Ele procurava os cabelos longos ainda. Avançou entre os carros e buzinou. Ele nunca buzina no trânsito. Só se for muito preciso. Só se for urgente. Ela o procurando. Os cabelos curtos. A roupa fina. Ela o viu.

Ela correu para fora da proteção da árvore. Olhou através do vidro da janela do carro. Ele estava apertando os olhos para vê-la melhor e então abriu a porta. Ela entrou correndo. A chuva parece que desabou justamente nesse momento. Ela fechou a porta. O som do mundo abafou. Ela ainda agitada. Ela quase gritou como os meninos com uniforme. Apertou a bolsa e a agenda contra o corpo enquanto se arrumava. Ele se curvou para falar alguma coisa. Ela se esticou e beijou seu rosto, sorrindo. Ela não gritou. Achou melhor não gritar. Mas não percebeu que sorria. E depois de o beijar sorriu mais.

Ele não lembrava mais o que ia falar. Sentiu o rosto quente e afogueado dela encostar no seu. Sentiu seus labios molhados. Chuva talvez. Sentiu seus lábios. Sentiu a pressão deles. Sentiu o cheiro do seu baton. Do seu perfume. Sentiu seus cabelos roçarem no seu rosto. Sentiu a respiração dela. A respiração dela. E sorriu. Aquele beijo quente, rápido, como quando ele a encontrava em frente a escola, ela de uniforme azul escuro. E sorriu.

Ela meio distraída do que fazia o olhou. A chuva desabava, rios desciam pelos vidros do carro, rosnavam às portas, trovões, buzinas, um caos os envolvia. E ele sorria para ela. Ele pareceu um menino por instantes. O menino que a buscava na porta da escola. Ela o achava no meio das outras pessoas pela cara sorridente de menino. E ficavam rindo um para o outro, dois bobos inseparáveis. Dois namorados. Ela continuou rindo, rindo do jeito dele.

_ Porque está rindo? disse ela, sorrindo mais e esperando alguma resposta que a fizesse continuar sorrindo.
_ Por que estou aqui com você! disse ele sorrindo mais também.
_ Vamos pra casa? disse ela, um pouco trêmula de frio.
_ Vamos! disse ele, sorrindo feliz.

E foram felizes o que puderam até ao menos o fim daquele dia.